01 novembro 2011

Cor.Ação




 Isto é o que vi de meu coração num fim de tarde, andando pelo centro. O mundo lá fora de mim buzinava, falava, tocava: por dentro, só silêncio. Existe uma crônica do Caio Fernando Abreu que se chama "Na Terra Do Coração", em que ele diz o que o coração dele o mostrou. Acontece que nesse dia, eu em silêncio enquanto o mundo acontecia lá fora, o meu coração me mostrou, como num suspiro carregado de múltiplas cenas, o que ele é - e que no fundo, não diz respeito a ninguém:

Meu coração é o poeta mais solitário, que em segredo escreve poemas mágicos para a menina mais bonita. Esta é apaixonada pelo vaidoso mais bruto e que, mesmo desenganada, sonha em um dia ser amada por um homem que lhe escreva poemas.

Meu coração é o louco do terminal, que grita as mais lindas frases de Amor enquanto as pessoas permanecem distraídas e avarentas na passagem de seus dias.

Meu coração é a última folha do caderno da menina mais feia da classe. Ao invés de frases suicidas, ela desenha inúmeros corações. A cor que mais prevalece em seu estojo é o vermelho.

Meu coração é a menina moça que está sempre pela primeira vez andando de escada rolante. Medroso. Tão burro.

Meu coração faísca.

Meu coração é pequeno. Cabe na palma d'uma mão. Além de mim, quem mais vai querer o meu coração? Meu coração não suporta ficar preso ao meu corpo, por isso bate e rebate. Sempre. Só vai parar de bater uma vez, e quando parar, será para sempre.

Meu coração é antes de tudo, o ontem. Ele é também hoje e, às vezes, ele também é o amanhã. Não o sobrecarrego, pois é louco: vive em conflito com o meu cérebro. E meu cérebro vive em conflito com o meu coração. Mas a verdade é que o meu coração e o meu cérebro se amam: um não vive sem o outro.

Meu coração tem medo do que eu possa fazer com ele. Eu tenho medo do que o meu coração possa fazer comigo. Estamos sempre buscando nos respeitar, eu e o meu coração. Tão problemático. Se pudesse, ele sairia de mim. Mas não sai porque sem ele eu não vivo. E sabe-se lá pra onde o meu coração iria se eu o deixasse ir-se embora...

Meu coração respira. E suspira.

Meu coração é o dançarino que se apresenta para uma multidão. É aplaudido. O que os outros não sabem - e nem podem saber - é que é para um único homem que ele dança, um ponto perdido no meio da platéia.

Meu coração é forte. Aguenta a minha vida inteira

Cavalo arisco com fogo nas patas, correndo pro mar, batendo e rebatendo. Se eu por minha mão direita sobre o peito esquerdo e fechar os olhos, eu vou lembrar: aqui esta ele. Batendo. Agora. Agora. Agora. E agora de novo. E de novo. Agora. O meu coração.

Meu coração ainda não aprendeu.

Fios de fumaça saindo dos bueiros, das plantas, do chão, da boca, dos olhos e de todos os orifícios dos estranhos que passam nas ruas, o meu coração se une e vai criando forma: transforma-se num gato; numa rua deserta; num pássaro preso dentro duma gaiola que fica bem na porta de uma casa, de frente pro céu infinito - todos os dias ele canta, e os pássaros livres param na varanda, observando angustiados o irremediável. Nenhum passarinho canta que nem ele -, e depois se desfaz, o meu coração, para se transformar num casal de namorados num jardim, bem honesto o que o meu coração sente e que ninguém sabe que ele sente. E se desfaz de novo com o vento o meu coração em forma de fumaça que se transforma em tudo no mundo. Basta um vento para desfazê-lo assim, como fumaça, como poeira. Ele nunca mais voltará a aparecer pra você.




Castelo.

Um comentário:

Tarco disse...

Tiago, é muito bom ter você conosco e que bom o seu texto sobre essa nossa porção vagaba, sofrida, oferecida, reciclável, vital, fatal e o escambau