30 abril 2012

Identificação com a personagem.

"O travesseiro dela estava molhado em pranto" foi o que li em certa altura de "O quarto de Jacob", da Virgínia Woolf. A frase estava no meio de um extenso parágrafo, quase solta, e era ela que mais reforçava a situação de Helen Aitken, no caso, a moça que molhou o travesseiro de tanto chorar. Parei a leitura neste momento, ao ler esta frase. "O travesseiro dela estava molhado em pranto", reli. Se eu estivesse distraído da leitura em sua profundidade eu teria deixado este fato passar despercebido, no máximo o teria apenas considerado mais um complemento do enredo do parágrafo, já que a própria personagem, Helen Aitken, em verdade não tinha grande importância na obra. Estaquei na frase. Melhor: estaquei no sentido da frase. E por estar concentrado na leitura, eu lia o livro e observava suas personagens como se eu estivesse ao redor deles, invisível, vendo tudo; como se eu fosse um móvel da cena. E ter "visto" Helen chorar me comoveu e eu senti uma enorme pena dela. Espontaneamente lembrei-me de quando, um dia (para ser mais exato, uma noite) eu também molhei meu travesseiro com lágrimas. Assim: o travesseiro dele estava molhado em pranto. Lembrei do que me levou a molhar o travesseiro com lágrimas e de como eu me levei a molhá-lo. E nós dois, eu e Helen Aitken, choramos pelos mesmos motivos. Identifiquei-me com a personagem. Fui seu travesseiro. E depois de devanear um pouco, continuei a leitura. O parágrafo estava acabando e em seu final eu li a seguinte frase: "Ah, a vida é detestável, a vida é má". Helen em nenhum outro momento foi ou seria comentada no livro.

Um comentário:

Tarco disse...

Tiago, dear, acabei de escrever sobre o filme Quem tem medo de Virginia Woolf? A primeira vez que ouvi falar sobre ela foi através dessa frase-título. A primeira vez que eu parei para pensar na escritora, foi conduzido pela informação de que ela era alguém que metia medo nos outros. Depois disso, fiquei sabendo que a peça de teatro de Edward Albee, adaptada para o cinema pelo diretor Mike Nichols, faz "apenas" um trocadilho com a música dos Três Porquinhos da Disney: Quem tem medo do lobo mal? (Who's afraid of the big bad wolf?). No entanto, vendo o filme, o trocadilho é apenas a ponta do iceberg de um diálogo do caralho com a criação. A postar...

PS.: essa inserção de personagens aparentemente sem importância também me diz muito, muitas vezes.