18 abril 2012

Título.

  Ando lendo a obra completa da Virgínia Woolf. Estou agora em seu segundo livro, “Noite e Dia”. O anterior a este foi “A Viagem”, que é traduzido pela Lya Luft. A tradução da Lya é mais, digamos, fácil de ler. Tem nele mais dialetos que eu conheço. Já em “Noite em Dia”, os dialetos são muito diferentes, algumas palavras, até, estou vendo - melhor: lendo - primeira vez. Culpa do Raul de Sá Barbosa, que é o tradutor deste livro. Ótimo tradutor, aliás. Se as palavras que ele usa para traduzir a Virgínia me são desconhecidas é exatamente porque ele tenta ser o mais exato possível no que ela escreveu. Resultado: vivo com um dicionário por perto. Não conheço todas as palavras do mundo, claro. Não conheço muitas, também, mas conheço algumas e acho que, entre outras coisas, o que me falta para capturar uma passagem qualquer durante meus fluxos de consciência que se mostram vez ou outra bastante complicados de serem escritor com clareza não passam de uma simples, porém grave deficiência minha: o meu conhecimento limitado das palavras. Quando me vejo diante de uma palavra a qual eu não conheço o significado, mesmo quando posta numa frase, eu penso “eu nunca me respeitarei como escritor se eu não souber o que significa esta palavra”, e se, por sorte, houver algum dicionário por perto, imediatamente eu trato de buscar seu significado. Repito a palavra ao menos umas cinco vezes na mente, torcendo para que haja situações no meu cotidiano ou durante algum evento espontâneo – e se não, que seja proposital - para que eu possa usá-la, verbalizá-la, senti-la. Talvez, depois disso eu a adote, se não, ao menos descobri seu significado. Descobrindo o significado de mais uma palavra que eu não conhecia, pra mim, é como um cientista descobrir uma nova espécie de animal e estudá-lo, aumentando seu conhecimento sobre a fauna da Terra. Descobrindo o significado de mais uma palavra que eu não conhecia eu sinto que venci mais um dos infinitos monstros que me impediriam de enfrentar a escrita da forma que eu quero. Na criação de textos, acho, deve funcionar mais ou menos da seguinte forma: palavra conhecida é palavra dominada. Se eu bem quiser, posso escrevê-la isolada, sozinha no canto de uma folha de papel em branco, sem mais nenhuma outra palavra ou coisa alguma ou alguém para sequer lhe fazer companhia. Sem mim também. Nada além do espaço branco, delimitado pelas bordas e espaço do papel ou lugar onde ela foi escrita e posta. Por exemplo:





você.





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Um comentário:

Enzo disse...

Castelo, tudo bom?
Eu idolatro Woolf, já li quase tudo dela que foi publicado no Brasil. Meu preferido disparado é "Rumo ao Farol".
Quando você for ler "As Ondas", fuja da Lya Luft. Eu tenho em pdf a tradução portuguesa de Lucília Rodrigues que é coisa de outro mundo, é magia cuidada a cada frase. Vale a pena imprimir, encadernar, e ter. Olha isso, por exemplo:

«The light struck upon the trees in the garden, making one leaf transparent and then another», Virginia Woolf.

Na tradução de Lya Luft: «A luz incidiu sobre as árvores no jardim, e suas folhas, tornadas transparentes, iluminaram-se uma depois da outra.»

Agora o mesmo trecho traduzido por Lucília Rodrigues: «A luz atingiu as árvores do jardim, tornando, primeiro, esta folha transparente, e só depois aquela.»

consegue sentir como a movimentação parece coisa de cinema? O vocabulário dessa mulher é de uma eloquência e fluidez...

se quiser, me escreve: enzopotel@yahoo.com.br

(o blog tá de parabéns, vim pelo mundo da denise bottmann)