27 julho 2012

hoje.

   Hoje eu acordei com a mensagem de meu melhor amigo dizendo que foi aprovado na faculdade. Também hoje, pela madrugada, minha mãe passou mal de tão feliz: ela ainda não se acostumou com as coisas boas que estão lhe acontecendo e se emociona fácil. Hoje eu abracei forte meu melhor amigo e enquanto eu sentia que as coisas estavam, por dentro, começando a se transformar, como num ciclo de graduação maravilhosa e coincidente - só esta semana eu vi dois casulos de borboletas e três estrelas cadentes -, eu lhe disse com muita firmeza: "Parabéns, meu amigo. Você mereceu!", por dentro eu era colorido. A vida suspirava tranquila dentro de mim. Eu a carregava como se eu tivesse acabado de beber um copo cheio de água e a água estivesse dando voltas violentas dentro do estômago. Eu sentia muita felicidade. Paz.
   Foi quando, voltando para casa, numa das ruas vi uma mulher morta.
   Havia pessoas ao redor, curiosas, e saindo da cabeça da mulher havia muito sangue. Um corpo morto. Sem vida por dentro, imaginei. Sem ação. Sem movimento. E não apenas imaginei, mas até onde eu pude sentir, eu senti. E inevitavelmente  a contrariedade das coisas logo me veio: o acúmulo de vida por dentro e ao redor de mim no decorrer do dia contrariado pela mulher morta estirada na rua. Poderia fugir deste fato, poderia ter escolhido passar por outra rua. Porém, já era tarde. Estava feito: eu havia visto um corpo morto no chão e a cada momento que eu olhava mais a imagem se pregava às minhas pálpebras. O máximo que eu poderia fazer era não olhar mais. Mas era inútil, de nada adiantava. Estava feito.
   Para precaver o que a vida pode me fazer, já que a vida não obedece às leis humanas e sim nós, humanos, é que temos de obecer às leis da vida, e como eu sei que toda verdade é uma verdade inventada, eu tratei de por em prática a verdade que eu inventei para mim: todos nós somos um lugar. Cuidamos de nós, ou seja, de nosso lugar da forma que bem entendemos. Há uma barreira física entre um lugar e outro, entre eu e o outro: o corpo físico. Foi preciso que eu tivesse a consciência de que aquela mulher era um lugar e que eu era outro, que nós éramos lugares diferentes, apesar de irmãos, e que aquele lugar já não estava mais vivo e que aquele lugar não me era alheio. Depois eu pensaria em como lidar com o fato de que a morte é mais agressiva que a vida, pois é a morte o lado mais irremediável da vida.
   Continuei a viver. Era preciso.
   Subitamente, andei. Continuei a andar em direção a minha casa. Mas parafraseando Clarice, sei que eu "não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue". Estou agora aqui, escrevendo. O mundo lá fora acontece entre buzinas e passos. É preciso coragem para acontecer junto dele.
   E pouco antes de sair da casa de minha mãe ela me chamou para ir à missa de sétimo dia do Zé, um dos filhos da minha bisavó paterna. Recusei. Também nunca tive intimidade com o Zé. O via de vez em quando, quando ele visitava a bisavó. Mas lembro que uma vez, quando mais novo, ele me deu dinheiro para comprar bombom.
   Foi isto o que, até agora, me aconteceu. Meu coração aguentou tudo, bombeando sangue pelas minhas veias. Rápido e lento, desde quando me deparei com a morte bem na minha frente, ele está também pesado. Não está mais tão difícil me concentrar em cada uma de suas batidas. Não esqueço que ele está batendo agora. E agora. E agora.
   E que só irá parar de bater uma vez, e quando parar, será para sempre.

3 comentários:

Paola Benevides disse...

Tiago, és capaz de ressuscitar qualquer coisa morta. Só porque sabes bem que não se trata apenas de uma coisa morta em si, mas de algo que foi vida uns dias em um corpo, outros dias em eternidade.

Tarco disse...

Adorei o texto, Tiago. Te abraço!

Castelo disse...

encontrei acolá:

http://www.youtube.com/watch?v=xwRHL9F9OIo