08 setembro 2012

bem que eu deveria

É. Bem que eu deveria escrever esse poema numa folha de papel higiênico e te enviar pelos correios, meu antigo e inútil amor. Ou não pelos correios, porque nunca decorei o endereço da tua casa. Para te entregar, eu deveria fazer como eu antes fazia: todas as cartas que eu te escrevia com as folhas do meu caderno, depois de escritas e bem envelopadas, eu pegava um ônibus e ia até a porta da tua casa, chamava pela tua mãe, dizia "olha, entrega ao teu filho quando ele chegar", e voltava imediatamente para minha residência, esperando chegar a noite para que você me ligasse e dissesse o que achou. Bem que eu deveria. Mas não faço. Porque você é antigo. E além de antigo, inútil. Apesar de amor.


[marítimo de tu e eu]

Habitei as tuas terras,
embora nunca tenha falado a tua língua;
explorei os teus mares
- sem pegar atalhos -
E parado no centro
dos teus oceanos
pulei em alto mar
e me deixei ser comido
pelos teus tubarões
que rasgavam com pressa
e com raiva
a minha carne.

Bebi do teu sal,
banhei-me das tuas espumas,
chorei sobre as tuas ondas.
Explodi dez vezes
nas tuas zonas abissais.

Conheci e me deixei ser atacado
pelos tentáculos que habitam teu mar.
Nas tempestades ferozes
tu me deixavas caminhar
sobre as tuas ondas.

Morri dez vezes em ti,
todas estas mortes ocorreram em maio.
E no fim,
quando já não havia nada para explorar,
tu me afogaste pela última vez
e desta vez foi real.
Não respirei mais as tuas águas,
engasguei com teu sal,
os tentáculos dos teus mares me sufocaram.

E muitos dias depois
na orla de algum mar distante
muito distante
foram encontrados
os restos de mim.


Castelo.

2 comentários:

Castelo disse...

São 2:59. Enquanto eu postava este texto, um número confidencial me ligou. Pensei em não atender. Atendi. A ligação durou exatos dois minutos e vinte e cinco segundos. E uma coisa a qual eu não consigo agora encontrar adjetivo adequando para classificar aconteceu: alguém leu para mim um poema. Tentei reconhecer a voz que lia, em alguns momentos pensei saber a quem pertencia. Mas, com medo de palpitar errado, fiquei calado e só escutei. E eis o que eu escutei: um dos poemas mais longos, sujos, assustadores, doloridos e lindos, lindos, sinceros e lindos, que jamais antes eu ouvi em toda a minha vida.

José Ailson Lemos Souza disse...

Não é pra menos, Tiago!
Tu sensualiza com poesia, quem resiste?