26 dezembro 2012

Ligação Perdida


   Já era noite, mas não era tarde. Dezenove horas. Ainda dava tempo de saírem. Ele pegou o celular, pensou que se hesitasse a primeira vez, hesitaria as próximas. O golpe deveria ser rápido e certeiro. Procurou o nome na chamada; encontrou. Instantes antes de clicar no botãozinho verde do celular, hesitou. Era tarde. Ele não havia ido com a convicção necessária. Pensou: já vai fazer uma semana. Ele ainda não me ligou. Das duas mensagens que mandei, ele as respondeu muito tempo depois. - tomou coragem - Eu ligo - procurou novamente o número na agenda - Eu ligo? Além de ter respondido muito tempo depois, das duas mensagens, ele apenas respondeu a segunda. Talvez ele apenas não quisesse ser grosso. Não, eu não ligo. Deixar quieto - Suspirou. Mas logo o impulso foi maior. Ele procurou rápido o número na agenda e sem pensar apertou o botãozinho verde. Estava feito. Os toques de chamada. Chamou uma. Chamou duas. Chamou três. Chamou quatro... - Cinco. Chamou por cinco vezes e ele não atendeu. - desligou a ligação - Desisto. - Na verdade, ele até sabia que foi apenas sexo. "Apenas-sexo". Era estranho pensar. Ele não era acostumado a fazer essas coisas, pensou e acabou por sentir amargura - Apenas sexo. Eu não sou de fazer essas coisas - Havia sempre a necessidade de construir algo a mais. Um carinho, uma companhia. Uma amizade. Um namoro: pensou fatalmente. Essa necessidade do "algo a mais" era um bicho incômodo, chato, sem senso de respeito e imaturo. Porra. Jogou o telefone na cama. Olhou-o por alguns segundos. Não via o telefone: telefone era um aparelho eletrônico feito para facilitar a comunicação entre as pessoas. Mas ele não via o telefone. Ele não via facilidade alguma na comunicação entre eles. Suspirou. Pegou o telefone de volta. Sentou na cadeira, de frente para o computador e sentiu que precisava se distrair: entrou no facebook e por lá ficou por duas horas. O telefone ao lado. Em momento algum o outro retornou aquela ligação perdida.

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