14 março 2013

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há dias que me percebo muito distante da vida.
dando passos cegos que não distinguem
o chão de azulejo da areia do quintal.

mas sempre sinto empatia pela natureza
quando olho para os cães que ladram cheirando o chão,
os gatos no telhado das casas, os pássaros negros,
as árvores postas tolamente nas ruas
ou o capim que cresce intrometendo-se à vida dos humanos.

as flores se parecem comigo com seus talos molinhos e finíssimos;
as pétalas das flores banguelas e de orgulho vencido.

será que elas doem como o meu corpo dói?

cambaleio da sala para o quarto, desço as escadas
e tenho atração pelas quinas dos móveis.
por onde ando há cá e acolá um fremir de meus
ossos contra o sofá, contra a porta,
contra o corrimão da escada,
contra a parede dos corredores,
contra o chão do último degrau do andar de baixo.

estou macérrimo e sinto inveja dos que comem
absortos em mastigadas, explosões infinitas de sabores e saliva
enquanto eu permaneço seco de pele e de ossos e de pêlos.
no mais, toda a oleosidade do meu rosto que escurece de orgulho,
às vezes. sim, de orgulho, preciso me denunciar.
aceito o orgulho por nada, porque o orgulho sempre é alternativa,
muito embora eu me sinta tão pequeno a cada dia em que a luz do sol me acorda
e meus olhos se abrem para o calor desta cidade,
acostumados ao "mais um dia".

pêlos, eles nascem às toras debaixo e ao redor dos braços, entopem o peito,
agarram-se como uma peste às minhas pernas e aonde não couber mais pêlos,
mais pêlos encravam-se por baixo do couro.

sinto a vida através das pequenas dores cotidianas:
o assassínio de um cravo, a dor na articulação do joelho esquerdo,
as noturnas dores de cabeça, a labirintite com sua dor fantasmagórica,
um dente ou outro que lateja, um osso que protesta e parece ranger,
os pêlos encravados, a dor do coração, a dor do silêncio
de me ver existindo tão amplamente.

porque a minha vida cresce cada vez mais,
embora meu corpo não a sustente.
e exatamente por isso eu não suporto enxergar
o quanto eu cresci dentro de mim.

porque meu limite é tão mais pesado que meu corpo, é tão mais
complexo que meu rosto, é tão mais
escuro que meus olhos, é tão mais
distante de mim
que ao olhar em busca de me orientar, perco-me de meu limite
porque o meu limite é um abismo.

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