15 maio 2013

carta à cidade

A grande maioria da população de Fortaleza está morta.
Quase nenhum dos fortalezenses nasceu ainda.

A minha revolta é esmagada todos os dias
Entre as manchetes de jornal,
Entre a fala dos amigos assaltados,
Entre a impotência diante das necessidades exclusivistas
Da população natimorta,
(Grandes palavras) 
Entre os ônibus lotados que aparecem
A cada dez mil carros que nascem dos becos,
Dos bueiros, dos cantos, das esquinas, das ruas, dos horizontes,
Carros aparecendo numa cidade-interior que por pouquíssimo não para
Num engarrafamento infinito.

As buzinas abafam o canto dos pássaros
E a fumaça os fazem cair mortos.

Entretanto eles, os pássaros, são sublimes.
Pertencentes a uma verdade onde não cabem prédios,
carros, circuitos internos ou seleções ao toque.
E eu os observo com o coração inflamado da dor
Dos que estão cegos e anestesiados demais para sentir.

Avante, cidade solar!
Onde o sol há muito não desaparece no mar,
Mas nos prédios; numa luz que resplandece
Não mais nas flores, porque as flores de hoje
estão nascendo nos esgotos
Que se confundem com ruas e
Plástico,
Mas que resplandece no vidro das construções megalogâmicas
De nossos superiores.
Avante! Sigamos!
(Deu no telejornal do almoço de ontem:
Fortaleza obtém a 13º colocação
Em capital mais violenta
Do mundo)
Eis as necessidades da
Cidade-berço-copa, sem espelhos.

Sim, sem espelhos.

Tu não enxergas a ti próprio, fortalezense.
Porque só quando tu souberes que
O reflexo do teu rosto é
O reflexo da tua cidade, bem como
O reflexo da tua cidade é
O reflexo do teu rosto,
É que tu vais perceber que há muito
Tu não te olhas no espelho.
Atentas por onde pisas, fortalezense.
Observa o grande painel da contagem regressiva
Para a copa do teu regresso e te perguntas
Aonde meteram o da contagem regressiva
Para o fim da desordem exposta
Que não era para nascer, mas nasceu.
Ergue esse teu olhar mole que num tradicional instinto covarde
E memória fraca fita o chão. Muda a tua história!,
Sociedade de espetáculos. O estudo do valor
Cultural da suingueira. A fala de macaco.
O grito que ecoa no silêncio de uma Fortaleza
Fraquíssima, de coração arrebentado,
Pulsando ferido, por trás dos panos.
E que ninguém vê. 

Aonde houver dois ou mais
Reunidos em teu nome,
Fortaleza,
Que tu temas: pois só falam de ti
Para abusar de ti.
O regime ditatorial invisível foi instalado com êxito
E pouco resta além do diário espetáculo
“do eu sozinho sendo o tudo o mais”.
Não há limites. Ergue o teu olhar deste poema,
Limpa os olhos, enxerga ao redor
O que já é tarde.



Castelo

Um comentário:

Tarco disse...

Grande Tiago!

Nossa Fortal é bem isso mesmo, incruada, abarrotada, claustrofóbica.

abraços