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13 junho 2013

Um Quarto com Vista



O olhar é sem dúvida um dos elementos mais importantes no romance Um Quarto com Vista, de E. M. Forster. A obra ilustra bem a curiosidade inglesa sobre o estrangeiro no início do século XX. A história tem início em Florença, lugar em que se reúne um grupo de turistas londrinos. Entre eles figura Lucy Honeychurch, a personagem principal. O turismo implica um contato com a cultura estrangeira que enfatiza bastante o olhar. Na língua inglesa, o termo sightseeing significa visitar lugares turísticos.

Lucy e sua acompanhante, Miss Bartlett, se decepcionam quando constatam que o quarto reservado a elas na pensão italiana não dá para o Arno. O senhor Emerson e seu filho, George, decidem trocar de quarto com elas. Esse primeiro contato entre Lucy e George evidencia uma relação entre o olhar e a questão dos gêneros. O senhor Emerson reforça sua oferta em trocar de quartos expressando que “Mulheres gostam de ter uma vista para olhar; os homens, não". Um olhar (feminino) sobre um objeto (masculino) contrasta com uma ordenação historicamente estabelecida do olhar, uma que presume um olhar masculino sobre um objeto feminino.

Um exemplo disso está numa das pinturas citadas logo no início, como a Venus de Boticelli.


O contraste aparece quando o olhar de Lucy, num de seus passeios por Florença, rende comentários sobre George, como se ele fizesse parte das esculturas expostas pela cidade. O narrador também revela um interesse acentuado pelo corpo masculino, em suas longas descrições de personagens sem grande importância para a narrativa em comparação com breves pinceladas para descrever personagens femininas de maior relevo. O interesse por observar, explorar visualmente tanto paisagens quanto corpos, tem relação com o despertar da sexualidade.

Narrativas ou romances de viagem eram comuns na época de Forster. O contato com culturas diferentes servia para denunciar e criticar a moral vitoriana. Por outro lado, essas narrativas também registravam as ansiedades provocadas pelas mudanças em curso naquele tempo. Dentre elas, a emancipação da mulher. O destino turístico descrito em Um Quarto é muito significativo. Florença surge no romance como um museu a céu aberto, exibindo para os turistas as maravilhas do Renascimento italiano. 

O período renascentista representa a superação da Era Medieval, também conhecida como Dark Age. Gradualmente, passa-se do teocentrismo para o antropocentrismo e secularismo, uma mudança de paradigmas muito importante que propiciou ganhos tanto para as artes como para os costumes. O aproveitamento das imagens desse período no início do século XX, especificamente no romance de Forster, questiona um novo tipo de "teocentrismo" estabelecido há séculos, sem que ninguém se desse conta: o homem ocupando um lugar divino e onipotente no interior das famílias. A moral vitoriana excluía mulheres, crianças, para não falar nos homossexuais, que eram considerados criminosos e punidos como tal. O desejo latente que brilha em pequenos detalhes da narração resulta dessa restrição.

Tarco 

20 março 2010

Juventude

Você tem a noção bem clara do que quer fazer do seu tempo. Identificar isso pode ser algo simples, um reles resgate na lembrança do que te moveu até então, sintonizar o bom senso, e definir o que fazer para começar um empreendimento pessoal. A partir daí, com a certeza do que se quer, basta ir até o fim, independente de cruz, pedras, e socos, que certamente vão aparecer no caminho. Falando em arte, os percalços do caminho algumas vezes podem ser tranformados em matéria-prima. Como no caso, na literatura, do bildungsroman, ou romance de formação. Este gênero bastante difundido na era romântica, ainda gera livros interessantes como Juventude (Youth: Scenes from Provincial Life II) de J. M. Coetzee.

Coetzee, escritor sul-africano, conseguiu entrar para o cânone da literatura de língua inglesa depois do prêmio nobel em 2003. Sua obra registra os conflitos de sua terra natal, que não faz muito tempo incomodava alguns setores internacionais com a sangrenta e vergonhosa segregação racial. A África branca nunca foi tão importante quanto é hoje Israel para continuar exterminando impunemente outro povo. Coetzee junto com Nadine Gordimer foram reconhecidos com o nobel pelo engajamento de suas vozes por meio da literatura.

Juventude faz parte de uma trilogia que reconstrói a tranformação do garoto naquilo que ele quer ser. Vários pontos de identificação, para quem, como nós, até sabe fazer outras coisas mas quer mais é ser artista, são construídos de forma entrecortada, fílmica, contemporânea: reunir experiências para tranfigurá-las em literatura; pôr-se à prova do mundo longe de casa, da família; culpa pelo manejo egoísta dos sentimentos alheios; inspiração na biografia de escritores que chegaram lá, etc. Interessante também observar o caráter exilado dessa formação artística que se dá em Londres, em meio à multidão de estrangeiros (iguais na oposição aos ingleses) que toma as ruas da capital da Inglaterra na década de 1960.

Juventude: cenas da vida na província II, J. M. Coetzee; Tradução José Rubens Siqueira (cia das letras).


Tarco Lemos