03 janeiro 2011

Calda de amora

Espere um pouco, quantos de vocês se julgam tão obcecados por si mesmos?
Todos os que prestam.
Dave Eggers, Uma Comovente Obra de Espantoso Talento


Por acaso o nome dela é Paola Benevides. Nessa cidade o número de pessoas é bem superior à quantidade de nomes com que nos deparamos no dia a dia. É como nas histórias de Garcia Marques, vão-se as pessoas e ficam os nomes (se repetindo). Desse modo, não causa surpresa a coincidência entre o nome desta moça e outra, a pós-indie-cyber-poeta conhecida de todos aqui neste blog:


Bem, deixando de lado essa coincidência banal, a moça em questão decidiu, no meio de uma tarde, sair e dar uma volta. A resolução, embora aparentemente banal, no fundo era existencial, como parar de comer carne. Sem mais nem menos e sem vergonha, ela saiu para a rua carregando consigo um imenso coração vermelho. Maior do que ela própria. Porém, irremediavelmente dela.

No seu rosto havia resquícios de constrangimento, afinal esta era a primeira vez que ela arriscava mostrar a sua desmesura mais íntima. Paola respirou fundo e  parou um instante, sentia como se fosse desmaiar. A jugular latejava. Olhares intrigados cruzaram com o dela numa esquina. Foi então que ela resolveu continuar o que traçara e abordou dois senhores que vinham em direção oposta: Olá, boa tarde! Os homens tiveram a mesma reação de gente quando passa por um cão enorme: afastaram-se. Com isso, ao contrário do que se poderia imaginar, ela tomou ainda mais coragem. Sim, uma reação positiva por parte de estranhos não era, na verdade, assim tão importante para ela. Muito mais relevante era a força que descobria dentro de si com o simples fato de ter conseguido abrir a boca com aquele coração gigantesco nas mãos. Força que lhe deu mais ânimo para sustentar o belo coração inflado.

Paola resolveu improvisar um pouco e mudou de planos. Agora precisava pegar um ônibus. Queria tomar um café no Dragão do Mar. Na parada, muitos veículos passavam e fingiam não ver a mão que acenava por trás do imenso coração. Topic nem pensar, ela pensou. Percebeu que dificilmente conseguiria subir num ônibus com o coração gigante a tiracolo. Táxi! Com táxi também houvera problemas. Somente na terceira tentativa, foi que enfim apareceu um taxista capaz de levar o seu coração no teto do carro.

Na cafeteria, Paola causou um verdadeiro alvoroço. Tão logo ela entrou, um garotinho gritou: Mãê eu quero um coração igual aquele ali, agora! Uma moça num grupo de adolescentes também se descontrolou, e não era possível dizer se ela ria de verdade ou se estava tendo um ataque asmático. Um velho careca mandou um beijo estalando os beiços. Um cego tocou involuntariamente no coração e recolheu a mão, nitidamente constrangido. Em seguida, uma garçonete deu um encontrão com o coração de Paola e foi ao chão junto com uma bandeja repleta de chantilly. Em meio a tudo isso, Paola também notou uma loira de lábios grossos cor de violeta tapando a vista do namorado. A mulher lançou um gordo muxoxo para o coração quando seu namorado finalmente conseguiu se livrar da venda de unhas escarlates. Não pensei que seria assim tão complicado, Paola pensou. Ela colocou o coração bem no canto da mesa que estava mais ao fundo da cafeteria. No entanto, aos poucos o lugar foi ficando vazio. Daí não demorou até o gerente chegar até ela e informar que ela teria que deixar o local imediatamente, pois não era permitido permanecer ali com aquele objeto imenso. Ele finalizou dizendo: Obrigado pela compreensão. Ela respondeu que não compreendia, mas que estava de saída.

Ao passar pela porta da cafeteria o coração de Paola estava reduzido a praticamente metade do que era havia menos de vinte minutos. Em contrapartida, ela o carregava com bem menos dificuldade. A grande maioria das pessoas não escondia o estranhamento ao ver aquele objeto inchado pulsando nos braços da moça de semblante combalido. Ela mesma parecia ir se habituando aos olhares curiosos e ofendidos que lhe acompanhavam.

Paola procurou um banco bem isolado para sentar. Precisava de um instante. Ponderou novamente sobre o bem que aquele passeio representava para ela, independentemente das reações alheias. A noite caía de maneira abrupta e o coração, apesar de menor, parecia destacar-se na falta de luz.

Imersa recapitulando a própria experiência, ela não percebeu de imediato que um rapaz não muito bonito aproximou-se e sentou ao seu lado no banco. Ao ser notado, ele perguntou se estava tudo bem. Ela fez que sim com a cabeça, porém, um tanto desconfiada. Ele comentou sobre o tamanho do coração dela sem demonstrar repulsa, estranhamento ou medo. Ela disse: Acredite, quando saí de casa hoje ele estava bem maior. Quando ela deu por si, o rapaz recitava bólidos de palavras incompreensíveis, obscuras, e Paola, como não é difícil imaginar, esforçava-se para captar o que ele dizia e ao mesmo tempo procurava em alguma entrelinha os motivos reais para ele estar ali com ela. Ele a convidou para ir ao café. O lugar de onde ela acabara de ser banida. Por conta disso ela o persuadiu a mudar de idéia e sugeriu a sorveteria mais próxima. Lá, o rapaz também a seguiu no pedido: um napolitano com calda de amora. Durante a conversava ele não tirava os olhos do coração que se agigantava ao seu lado. Era estranhíssimo, mas ele começava a enfastiar-se do sorvete mal havia experimentado a gelada mistura adocicada de gostos na boca.

Tarco Lemos      

Um comentário:

Paola Benevides disse...

O caldo da amora é por tanto espremerem meu coração, seja eu mesma ou seja o cão. É por isso que o sumo é bem roxinho. Um beijo grato para o amigo autor de mim, quase meu deus, só porque me pintou parecido. Eu também te carrego no peito!