21 janeiro 2015

Reality Show italiano quer revelar autores

Um auditório futurista é o cenário para 4 romancistas estreantes que se debruçam em seus computadores. O grande cronômetro acima de suas cabeças fervilhantes oferece meia hora para escreverem um texto de ficção sobre qualquer tema que acaba de ser apresentado. Telões exibem em tempo real cada palavra digitada, enquanto autores de renome observam e conversam descontraidamente. Na Itália, é o que se vê na TV: Masterpiece, um Big Brother literário, criado pelo canal Rai 3, em parceria com a produtora FremantleMedia, do American Idol.

masterpiece
No programa, dezenas de candidatos disputam contrato para publicar um romance de estreia pela Bompiani, uma das editoras mais tradicionais do país. Além de escrever diante das câmeras e sob pressão, o vencedor deve ser capaz de cumprir outras tarefas importantes para um futuro best-seller, como declamar trechos de seus livros e abordar a diretora de uma grande editora no elevador para convencê-la a ler seus originais. Ao final de cada episódio, um finalista é selecionado. Escritores italianos de sucesso dão dicas para escrever melhor durante os créditos finais.

Antes mesmo da estreia, o programa já causava polêmica. Seus críticos o acusavam de vulgarizar a Literatura. A superexposição dos candidatos nas provas seria um insulto ao ato de criação literária, lenta e solitária por natureza. 

Críticas em jornais afirmaram que escritores reclusos, como Kafka jamais participariam de algo do tipo. Sobrou até para o nome do programa, Masterpiece (algo como “obra-prima”). Se a ideia era valorizar a literatura italiana, por que adotar um anglicismo como nome do programa? E, afinal, que espécie de obra-prima da literatura surgiria de um reality show?

As críticas duras não impediram 5 mil candidatos a autores de mandar rascunhos de seus romances de estreia em busca de uma vaga no programa. Como todos os participantes, podem ser acusados de exibicionismo e busca da fama a qualquer preço. Como em qualquer crítica a programas do gênero, a acusação contém um pouco de verdade e muita má vontade. Há reality shows para todos: de supermodelos a chefs mirins australianos. Por que não um para escritores?

02 setembro 2014

EMILY'S CARRIAGE


Baseado no poema "Porque eu não conseguia parar para a Morte", de Emily Dickinson, esta pintura pretende trazer Dickinson e sua poesia para o mundo de hoje da cultura pop, colocando-a, não em uma carruagem puxada por cavalos, mas em um táxi retrô. Na cabine, também estão William Shakespeare e Jack Kerouac, representando diferentes períodos da poesia, tanto clássicos, quanto no ápice da vanguarda. Dentro do automóvel é preto e branco, enquanto o exterior é colorido, um contraste entre o presente (exterior) e o passado (interior), embora os personagens ainda existam, em certa medida (mesmo tendo mudado o próprio tom). O carro sai da perspectiva enquanto o sol se põe, em representação às mortes físicas dos poetas, um pouco mais lentas e incompletas em seus vários gêneros do que a morte aparente da própria poesia na cultura popular atual.


April A. Fontaine é um artista autodidata que vive no interior da Nova Inglaterra, EUA. Sua obra de arte foi premiada pelos membros da exposição Dead Poets.


Emily Dickinson (1830 - 1886)
(712)

Because I could not stop for Death – 
He kindly stopped for me – 
The Carriage held but just Ourselves – 
And Immortality.

We slowly drove – He knew no haste
And I had put away
My labor and my leisure too,
For His Civility – 

We passed the School, where Children strove
At Recess – in the Ring – 
We passed the Fields of Gazing Grain – 
We passed the Setting Sun – 

Or rather – He passed us – 
The Dews drew quivering and chill – 
For only Gossamer, my Gown – 
My Tippet – only Tulle – 

We paused before a House that seemed
A Swelling of the Ground – 
The Roof was scarcely visible – 
The Cornice – in the Ground – 

Since then – ‘tis Centuries – and yet
Feels shorter than the Day
I first surmised the Horses’ Heads 
Were toward Eternity –

21 agosto 2014

Tomasz Jastrun

Na cidade

Nada mudou
Os mesmos prédios e as ruas cansadas
Apenas as pessoas andam
/ diferentemente
Como se tivessem medo
De perder
A dignidade recém-conquistada

Tradução de Ana Cristina César e Grazyna Drabik
Folhetim, 23.06.85

27 julho 2014

MISSIVA EM MÍSSIL

Recebi esta carta do Tarco há exatos dez anos. Inexplicavelmente, fui remexer os baús do passado e, relendo, questionei-me sobre o mundo - esta roda gigante que entremeia guerras e paz, quase em looping. Eis uma perturbadora sincronicidade acerca do que, hoje, também nos defrontamos em realidade:

"(...) Você não acha que estamos demasiadamente insensíveis? Aquilo no Iraque é nojento, a questão da invasão de Israel na Palestina é cruel e não discutimos isso, ficamos indiferentes dando graças a Deus por estarmos longe. Aonde vamos parar? Às vezes, invejo aquela juventude engajada dos anos 60 e 70. E a cooperação mundial para que o planeta não seja dizimado pelo homem que mais parece uma peste de cupim, onde anda? Somos mais de seis bilhões de pessoas! Faz bastante tempo que esse número me assusta. Há alguns dias, escrevi isso, pensando no mundo: 

VELHO MUNDO DE AREIA
MUNDO VELHO DE VIDA
MUNDO CHEIO DE GENTE
CHEIO DE GENTE E VIDA
AREIA VELHA SOPRO DE VIDA

Às vezes, a situação do mundo me inquieta e me acalmo escrevendo algumas bobagens. Como conseguimos raciocinar (?), nossa capacidade de reflexão supostamente nos dá uma grande responsabilidade. Precisamos do planeta, mas ele não precisa de nós para continuar a existir, muito pelo contrário (...)."

TARCO ZAN, 17 de Julho, 2004.

16 junho 2014

Bloomsday


Joyce escolheu o dia 16 de junho para ser imortalizado em sua obra porque este foi o dia em que teve a primeira relação sexual com sua futura companheira, Nora Barnacle (apesar de a imprensa irlandesa publicar que, nesse dia, eles "caminharam juntos" pela primeira vez), que, à época, era uma jovem virgem de vinte anos. Na verdade, Nora teve medo de completar o coito e o masturbou "com os olhos de uma santa", como Joyce relatou em uma carta.1

15 maio 2014

Loucas Noites



Hoje é aniversário da morte de uma das minhas poetas favoritas, Emily Dickinson. É impressionante como sempre - isso já faz alguns anos - encontro algo interessante e instigante sobre ela: seja um poema, uma especulação biográfica, uma ressonância em outro poeta, ou crítico, ou leitor iniciante. Um momento emocionante quanto à minha divulgação da grande poeta norte-americana foi ver um poema que trabalhei em sala, dias depois, rabiscado a lápis no banheiro da faculdade. Não basta ler apenas um de seus poemas! É preciso ler vários, e ter a experiência de se surpreender com sua polidez em um e sua audácia em outro. Loucas Noites dá título a um volume traduzido por Isa Mara Lando, que vem com uma ótima introdução.

Loucas Noites - Loucas Noites - !
Estivesse eu contigo
Loucas Noites seriam
Nosso luxo, nosso abrigo!

Fúteis - os Ventos -
Para um Coração no porto -
Adeus Bússola -
Adeus Carta de marear - !

Remando no Éden -
Ah, o Mar!
Ah, seu eu pudesse -
Esta Noite -
Em Ti - ancorar!

Emily Dickinson

Trad. Isa Mara Lando

01 maio 2014

"Menos vivi do que fiei palavras." NILTO MACIEL (1945-2014)



Nilto Maciel, escritor e pesquisador cearense, foi encontrado morto em sua residência, no bairro Monte Castelo. Ele morava sozinho, amigos estranharam o fato de que não respondia e-mails nem atendia telefonemas desde o último sábado. Deveria ter feito a abertura de um encontro sobre literatura fantástica, em Sobral, mas sumiu. 
Raymundo Netto, seu amigo e editor-adjunto das Edições Demócrito Rocha, participaria do mesmo evento. “Tinha falado com ele na sexta. Íamos viajar. Nilto não gostava de viajar sozinho. Tinha comprado as passagens, mas na segunda-feira não me respondeu. Hoje (30 de abril), por volta de meio-dia, ligou o professor Dimas Carvalho, organizador do seminário, para dizer que Nilto não tinha ido”, conta. Raymundo foi até a casa do pesquisador. “Bati no portão. Vi que o carro estava na garagem e a correspondência estava no chão, toda molhada.” 
Acionada a Perícia Forense do Ceará, depararam-se com o corpo do autor na sala e uma poça de sangue por perto. As luzes estavam acesas e o computador ligado. Uma mala repousava sobre o sofá. O laudo sairá em até 30 dias. Segundo o Jornal O Povo, vindos de Brasília, familiares devem chegar a Fortaleza esta manhã. Nascido em Baturité, Nilto Maciel dedicava-se à literatura cearense. Organizou dois volumes de contos. Estreou com o livro Itinerário e foi co-editor da revista O Saco na década de 1970. Nilto deixa quatro filhas e tinha 69 anos.
Emocionada com o desencarne de Nilto Maciel, fui dormir e acabei sonhando que ia a uma biblioteca com Tarco, meu parceiro de Traças S/A e irmão de muita vida. Em meio às prateleiras, avistei um livro de capa dura vermelha e abri aleatoriamente em uma página que me sorria algo como um trocadilho com meu nome: 
Paola (Benevides, bem-vinda menina, bem vive a tua arte, pinta, borda e escreve), viva!
No sonho, chorava compulsiva, correndo para mostrar o trecho ao meu amigo que aqui também escreve. Procurava, procurava e desaparecia a mensagem em minhas mãos. Agradecendo aos espíritos benfazejos que agora conduzem Nilto à luz, imortalizado na alma, acordei mais feliz.

29 abril 2014

Carl Sandburg


Consultei professores que trabalham com o sentido da vida em busca
de saber o que é felicidade.
E também procurei grandes executivos que comandam
homens aos milhares.
Eles balançaram a cabeça e sorriram como
se eu estivesse de brincadeira
E então num domingo a tarde vaguei ao longo
do rio Desplaines
E vi um grupo de húngaros ao abrigo das árvores com
suas mulheres e filhos e um barril de cerveja e um
acordeão.  

Carl Sandburg
Tradução: Tarco

22 fevereiro 2014

AUTO* DA PAZ

Alto da Paz. Fortaleza, Ceará, Fevereiro de 2014. Foto: Elitiel Guedes.


Durmo com os caixeiros-viajantes, em projeção astral, abduzido pelas moscas volteando minha carcaça, a regurgitar e a engolir o próprio vômito. Durmo coberto com folhas outonais a me caírem de sono, a olvidar suas amas secas, enquanto as árvores ancestrais não encontram seus donos e os pássaros colibram a visão do mundo dentro da perspectiva de suas céleres asas: marcha para trás. Durmo com a fome nunca ouvida, entre alucinações e altíssimos roncos estomacais. Durmo sem casa, rebelde do terreno baldio, sem calças, nem calçamento digno em que possa deitar meu pranto e camuflar meu cinza, à sarjeta, na fossa, quando todo gato é pardo, atirando pedras à noite até meter a cabeça no bloco de concreto. Não armado. Pesadelo. Autoflagelo ou linchamento? Durmo ante o perdão dos outros. Durmo desalojado em qualquer hora do dia. Atearam fogo em mim, mas eu já não era nada, mesmo assim. Durmo por minha causa, boquiaberto, enquanto pensavam se tratar de um bocejo. Durmo por estupefação, nojo, enfado. Durmo com cheiro de queimado em meio à correnteza, levada como lixo azedo preso rente aos sacos. Durmo acorrentado pelo frio do corpo. Durmo com meu filho deserdado por um aborto, por um chute na barriga de minha mulher. Durmo em barricada. Durmo, porque já morto, desalmado. Durmo a par dos sonhos que se supõem reais. Durmo, sobrenatural, sem esperar pelo tempo. Durmo por saber que não voltarei aqui nunca mais.

Texto: Paola Benevides

*Auto (latim: actu = ação, ato) é uma composição teatral do subgênero da literatura dramática, surgida na Idade Média, na Espanha, por volta do século XII.

*Alto da Paz é uma comunidade situada no bairro Vicente Pinzón, em Fortaleza, onde moradores foram desapropriados pela Polícia Militar de forma violenta.

12 fevereiro 2014

Um poema de Sylvia Plath

Limite


A mulher está perfeita.
Seu corpo

Morto enverga o sorriso de completude,
A ilusão de necessidade

Grega voga pelos veios da sua toga,
Seus pés

Nus parecem dizer:
Já caminhamos tanto, acabou.

Cada criança morta, enrodilhada, cobra branca,
Uma para cada pequena

Tigela de leite já vazia.
Ela recolheu-as todas

Em seu corpo, como pétalas
Da rosa que se encerra, quanto o jardim

Enrija e aromas sangram
Da fenda doce, funda, da flor noturna.

A lua não tem por que estar triste
Espectadora de touca

De osso; ela já está acostumada.
Suas crateras trincam, fissura.

Trad. Luiz Carlos de Brito Rezende


04 fevereiro 2014

METAFÍSICA DO ESTETA


O tremor do terror me fascina à criação do belo
Não passa de amarelo a cor desse azul-piscina
Mergulho no poro quando arrepiado
Ser pequena poça em pelo desanuvia

Peço passagem à carruagem que me congestiona
Nem vejo cavalos ou suas correntes
Saio à corrida através do medo
Quem sabe viagem, ilusão de um segredo...

O que faria Zeus em seu lugar? Mitologia.
Não compro a beleza da Grécia
Pálidos mármores, gélidas frontes
A fonte da tristeza está no ar

Um vírus, um tiro no gesso armado
Concreto surreal muro de ser
Você não existe em nada que não for lembrado
Cartas entregues desintegraram-se já

Meu desejo é a mais pura certeza da morte
Porque tudo passa e finge que não vê
Veja você: - que galho de almas!
Dentre esta árvore da vida, raiz a romper.

O solo árido barreia costelas
Então logo seremos estrelas aos montes
Frágeis remelas a se jogarem de pontes
Ao sonho que, se acordou, preguiça revela ao nascer.


PAOLA BENEVIDES

02 fevereiro 2014

Blog do Carlos

O blogdocarloscarvalho (http://blogdocarloscarvalho.blogspot.com.br) é um espaço pessoal, criado para o registro de resenhas de obras lidas pelo autor. No entanto, o referido espaço também está aberto àqueles que desejarem ter, naquele espaço, seus livros devidamente resenhados. Para tanto, os interessados deverão apenas entrar em contato com o Carlos Carvalho, enviando um exemplar da (s) obra (s) publicada (s) e um breve currículo. As resenhas estarão disponíveis em, no máximo, dois meses, não sendo aceitos trabalhos em pdf, por exemplo, mas apenas a obra física.

28 dezembro 2013

Problemas....sempre Existiram (Humberto Gessinger)



Não fui eu
Não foi você
Nem foi a máquina de escrever
Que matou a poesia
Não foram os deuses
Nem foi a morte de deus
Não foi o jabá da academia
Que matou a poesia
O fim de semana
O fim do planeta
A palavra "sarjeta" no fim do poema
Problemas... sempre existiram
Esteróides anabolizantes
(samplers)
Dicionários de rima
O medo do fim no final das contas
Problemas... sempre existiram
Sempre existirão
A última palavra é a mãe de todo o silêncio
Façamos silêncio para ouvir o último suspiro
Descanse em paz a mãe de todas as batalhas
A última palavra é a mãe de todo o silêncio
Descanse em paz, dê o último suspiro
Façamos silêncio para ouvir o último poema
? por que você não soa quando toca?
? por que você não sua quando ama?
! ninguém derrama sangue
Quando perde guerras de fliperama!
? por que você não sua quando toca?
? por que você não sua quando ama?
? por que você não soa quando toca?
? por que você não sua quando ama?
As mentiras da arte são tantas...
...são plantas artificiais
Artifícios que usamos
Para sermos (ou parecermos)
Mais reais
Um pedaço do paraíso
Uma estação no inferno
Uma soma muito maior do que as partes:
As mentiras da arte
(o último poema)

17 dezembro 2013

Para ser dito num jantar em família

Eu tenho medo de seu eu.
E sei disso agora,
Que qualquer palavra sonora,
Estranha, inutilizada,
Quase me faz emergir, vir à tona.

Respiro, e em esforços, ofegante, volto.
Há vergonha, há medos, há tropeços
E medos outra vez.

Por impuro medo
Permaneço assim,
Escondido, calado,
(Olhos enormes observam
por detrás das grades)
Dentro de mim.




Castelo.

08 novembro 2013

SEMANA C. S. LEWIS

2013 marca os 50 anos de morte de Clive Staples Lewis, ou apenas “Jack”, para os mais chegados. Talvez você já tenha ouvido falar dele antes... Ele foi ninguém mais, ninguém menos do que C. S. Lewis, o célebre autor das Crônicas de Nárnia.
Anualmente, no período de 22 a 29 de novembro, leitores, admiradores e estudiosos de sua vasta obra buscam, das mais variadas formas, notabilizar as contribuições de Lewis para as diversas áreas do conhecimento, mas, principalmente, na busca pelo sentido da existência humana. Ele foi romancista, poeta, acadêmico, crítico literário, ensaísta e teólogo. Esses dias têm relação com as datas de seu nascimento e de sua morte. Lewis nasceu em 29 de novembro (de 1898), na cidade de Belfast, Irlanda do Norte, e, 64 anos depois (1963), faleceu no dia 22 do mesmo mês, em Oxford, Inglaterra... (site do evento).





02 novembro 2013

onde, às dezessete horas, habita a escrita

  Por onde se prende os fragmentos do que pede para ser escrito durante os minutos entre às dezessete e dezoito horas, diante da luz macia dum céu que está deixando de ser sol para ser lua e estrelas? Antes do olhar se perder diante da profundeza do céu, onde tudo se explica, há uma morte diária enquanto as vizinhas conversam na calçada, os pássaros cantam às árvores e as luzes se despedem da Terra. O escritor, em sua solidão e sede de existir, diante de tudo isso tem disposto apenas o que lhe é disposto: suas canetas, suas folhas de papel, seus cadernos de anotações. Seus livros. Suas frases. Sua vida, única e incompleta, e por isso voltada para o horizonte das palavras. A escrita descansa sobre sua escrivaninha, no espaço entre os livros, nas paredes, nos olhos seus sonolentos, nos ângulos por onde ninguém mais vê; está a todo instante pronta para ser colhida dos cantos e entregue às mãos do escritor. 



28 outubro 2013

miniconto

TaediumVitae

Desempregado, time caiu pra terceira divisão, artrite cada vez pior, senhorio no encalço, dor intermitente no peito, geladeira vazia, mulher com caroço esquisito no seio esquerdo, filho drogado, xi, mais essa, válvula da descarga quebrou.



Vencedor do prêmio jabuti 2013 na categoria romance.

27 outubro 2013

"As canções perderam impacto. Inclusive as boas. Elas estão em toda parte, são ouvidas em todas as situações, sem força".


Este domingo dormi mais pesado que o normal. É data de nascimento da suicide poetess Sylvia Plath, que nos deixou esta bela canção de ninar: "Respirei fundo e escutei o velho e orgulhoso som do meu coração. Eu sou, eu sou, eu sou." (I took a deep breath and listened to the old brag of my heart: I am, I am, I am.) - The bell jar‎ - Página 199, Sylvia Plath - Bantam Books, 1972 - 216 páginas. Impossível não associar ao que ocorreu, em sincronicidade mórbida, também hoje...

O sono me dragava, enquanto já pipocavam as notícias sobre a morte do mestre Lou Reed, com 71 anos, por complicações devido a um transplante de fígado. Pai da música alternativa, poeta das esquinas norte-americanas, fundador do Velvet Underground, grupo que o artista Pop Andy Warhol fora mentor. Um dia triste para seus fãs, beatnicks, punks e demais que têm bom gosto. Exímio letrista, era admirador de Edgar Allan Poe, Raymond Chandles e James Joyce, a quem faz referências em BLUE MASK:


They tied his arms behind his back
to teach him how to swim
They put blood in his coffee
and milk in his gin
They stood over the soldier
in the midst of the squalor
There was war in his body
and it caused his brain to holler

Make the sacrifice
mutilate my face
If you need someone to kill
I'm a man without a will
Wash the razor in the rain
let me luxuriate in pain
Please don't set me free
death means a lot to me

The pain was lean and it made him scream
he knew he was alive
He put a pin through the nipples on his chest
he thought he was a saint
I've made love to my mother, killed my father and brother
what am I to do
When a sin goes too far, it's like a runaway car
it cannot be controlled

Spit upon his face and scream
there's no Oedipus today
This is no play you're thinking you are in
what will you say
Take the blue mask down from my face
and look me in the eye
I get a thrill from punishment
I've always been that way

I loathe and despise repentance
you are permanently stained
Your weakness buys indifference
and indiscretion in the streets
Dirty's what you are and clean is what you're not
you deserve to be soundly beat

Make the sacrifice
take it all the way
There's no "won't" high enough
to stop this desperate day
Don't take death away
cut the finger at the joint
Cut the stallion at his mount
and stuff it in his mouth

R.I.P