20 dezembro 2012

Eu nunca li Bukowski - um relato


Estou cumprindo o que eu disse. Que escreveria sobre o ocorrido. Faz poucas horas, e tudo durou em torno de uma hora e meia e me impressionou tanto que vou contrariar o que revelei para minha irmã dia desses: que não tenho problema nenhum em voltar atrás com o que digo. Não me sinto preso nessa de manter palavra. De jeito nenhum. Me reviso bastante, contrario numa boa, já que sou muito contrariado. Não sou volúvel, não. Sou apenas um cabra velho, como o Bukowski. 

Falaram muito de Bukowski hoje a noite. Como eu já ouvi falar de Bukowski! e nunca li. Acho que nunca revelei que nunca li Bukowski. Só vi o filme Factotum, com Matt Dillon, baseado num livro dele. Assisti esse filme sozinho na sala Benjamin Abraao, na Casa Amarela, na época que tentaram fazer daquele espaço uma sala de cinema com filmes fora do circuito comercial. Parece que não decolou. Cada vez mais tenho a sensação de que aqui muita coisa boa não decola. Mas posso estar desinformado e a sala ter voltado a funcionar. Tenho a sensação de estar pisando em ovos e cada vez mais gosto de ficar em casa lendo, na cama, numa rede, como agora.

Falaram de Bukowski em alusão ao fato de que ele, mesmo velho e feioso, era muito pegador, como o Sartre. A moça que me socorreu, que se chama Alice, disse que Sartre certa vez reclamou do período que passou na Rússia, já que ele, desprovido de qualquer atrativo físico e sem falar a língua, não tinha como seduzir mulheres com o papo. Portanto, não comeu nenhuma russa. Alice citou então o Bukowski, velho safado, de quem ela gosta muito de ler as histórias. Misto-Quente. Pulp. Mulheres. A amiga de Alice, então, falou que adorava os beatniks. Alice, acendendo um dunhill atrás do outro, lembrou que Bukowski já era velho na época dos beats, ele não fazia parte dos beats. Eu comecei a atentar, relaxando um pouco da tensão em que me encontrava, para o fato de que elas deviam estar discutindo aquilo tudo porque eu disse que era professor de literatura inglesa. Daí eu revelei que infelizmente ainda não tinha lido o tal do velho safado e também não conhecia muito bem os beats, apesar de conhecer muita gente que gostava bastante. A amiga da Alice passou a elogiar On the Road, você viu o filme? Ela passava acetona nas unhas e em seguida pintava de um tom escuro meio tinto, quase preto. É uma pena, ainda não vi, apesar de ter me interessado muito, eu disse. Ao meu lado havia um volume de Mario Vargas Llosa – outro autor que também ainda não li. Quanto ao filme de Walter Sales, só ouvi elogios, acrescentei.

A Alice passou a falar da Kristen Stewart, que, em sua opinião, sempre atua bem em filmes alternativos. O namorado da amiga da Alice discordou nesse ponto. Pra ele, a Kristen é a versão feminina do Schwazenegger, etc e tal e eu me sentindo cada vez mais à deriva diante de tanta coisa que nunca vi ou li. Que povo interessante! E ainda por cima me salvaram a vida.

A Alice, seu companheiro e seus amigos me abrigaram depois que fui assaltado, hoje (19/12), quando saí do centro de humanidades da UECE. Eu caminhava falando ao celular. Os três assaltantes me cercaram em duas motos. Pareciam inexperientes. Tanto que joguei o aparelho, entregando numa boa, e eles deixaram cair no chão. Carcaça e bateria foram parar longe. Quando falaram em carteira, eu já tirado do bolso. Joguei para o interior de uma casa logo atrás de mim. O meliante mais gordo se irritou, mostrou um revolver e veio pra cima. Foi então que eu corri e me joguei por cima do muro baixo da casa da Alice, que estava conversando com os amigos na área. Rasguei o jeans, a mão, e, segundo as meninas, soltei um grito assustador. Elas ficaram nervosas, me deram água e em seguida, jujubas.

Que sufoco! Eu estava calmo mas atordoado. Enquanto eu tomava água em pequenos goles (tava ruim de descer) as meninas relataram vários casos de assaltos na área. Esse era o terceiro presenciado nesta semana pela amiga de Alice. Os criminosos ficam de tocaia numa rua lateral, escura, e quando detectam uma vítima, atacam de surpresa.

O namorado da amiga de Alice ficou surpreso com o fato de serem três. Ainda mais estupefato ele ficou com o que eu ouvi dos policiais. O companheiro da Alice fez a grande gentileza de me poupar de falar no calor do momento e ligou para o 190. Explicou a situação, e deu o endereço de onde estávamos. Esperamos uma hora. Foi nesse intervalo de tempo que tive a oportunidade de ouvir e ficar encantado com a conversa daquelas pessoas, que estudam filosofia, fazem vídeos e namoram. Depois de tamanha demora, Alice lembrou o número do ronda do quarteirão responsável pela área. Eu já tinha me refeito do susto e por isso eu mesmo falei. Expliquei a história, disse que já havia informado o fato ao 190 e que aguardava uma viatura que me acompanhasse até a casa onde eu tinha jogado a carteira. O policial informou que a viatura demorava devido às inúmeras ocorrências deste fim de ano, e que eles, particularmente, estavam ocupados (não era má-vontade, ele frisou) atendendo a dois casos naquele exato momento. Certamente iriam demorar, ele disse, as pessoas estavam endoidando nesse fim de ano com o fim do mundo, acrescentou o policial. Foi nesse momento que falei: eu vou escrever isso! Eu não acreditava nos meus ouvidos. Meus olhos entregavam meu espanto.

A Alice e o casal de namorados foram comigo até a casa onde joguei a carteira. Ninguém atendeu a campainha. Mas vi através das grades uma moça num dos cômodos. Da calçada, chamei sua atenção e expliquei a situação. Ao que parece, ela se assustou um pouco e segundos depois nos informou que o pai atenderia da varanda da casa. Enquanto isso, a amiga da Alice imitava trejeitos tipicamente magiclims. Rimos nervosamente, aflitos com a aproximação de carros suspeitos. Recuperei a carteira. O dono da casa, o filho e o poodle, a exemplo de Alice, foram bacanas e solícitos. Me despedi deles tão confuso, assustado e maravilhado que peguei o ônibus errado, com meu jeans rasgado, a cueca branca a mostra, e uma vontade danada de ler Bukowski, Kerouac e ver a performance da Kristen no filme do Walter Sales.



Tarco

2 comentários:

Castelo disse...

Você pareceu eu, aos 15 anos, sem nunca ter ido ao cinema enquanto meus amigos comentavam as estreias que haviam ido, sem nunca ter ouvido The Beatles, sem nunca ter ouvido falar de teatro pós-dramático, de nunca ter comido lagosta. Eu sempre ficava encantado com essas coisas que eu ainda não havia crescido pra poder descobrir.

Quanto ao assalto: quando li a tua narrativa, senti medo e pensei exatamente assim: "EU ESTOU COM MEDO DE ANDAR PELO BENFICA". Em uma semana, um amigo bailarino foi espancado e levado ao hospital com ossos quebrados, além de outra amiga, que teve as coisas levadas por assaltantes que puseram uma arma em sua cabeça. E agora você. Em uma semana, tudo isso. Eu estou com medo. De verdade. É sério. Eu estou.

Paola Benevides disse...

Você é o melhor beat que conheço.