26 janeiro 2013

ABATIMENTO CARDÍACO

Uma dor consome minha cabeça e tenho sentido batimentos dentro estômago nesses últimos dias. Seriam mesmo os últimos meus? Há alguns meses, fui ao médico fazer exames de rotina, mas só esta semana soube do resultado. O ultrassom revelou suspeita de aneurisma entre o esôfago e o coração e aquela antiga sensação de que partiria mais cedo foi posta em prática. Dramática por natureza, tenho me fechado no quarto entre sonhos, pranto desesperado, telefonemas e escritos. Repentinamente, passei a ter mais tempo para mim, resolvi ler todas as postagens deste blogue o qual tinha preterido em razão do trabalho, sentindo-me mais a par da realidade e da ficção dos fatos, outros livros, achando que me valho outros quinhentos mal pagos. Meus amigos se pronunciaram prontamente. Três ou dois. Tarco me prometeu envelhecermos juntos, enquanto comia brownie com chá de maçã e canela no café dos evangélicos aqui perto de casa. Foi aí que eu me senti amada de verdade, meio sem graça, sem cor, sem alarde, mas certa de quem se importa e não acha que isto seja frescura em tom exagerado, como o avermelhado de sempre do meu batom. A família quis me confortar com explicações científicas e um próximo retorno ao cardiologista, que enfim decifrará melhor as minhas vísceras. Andei me enfurecendo com a vida, só porque não fumo, tenho horror à gordura e beber já não o faço tanto. O mais estranho de tudo isso é que esse tipo de doença se manifesta com maior frequência entre homens da terceira idade. Eu sou uma mulher de 27 anos ainda, aquela idade fatal em que se eternizam muitos astros do rock. A overdose teria seu charme caso eu consumisse drogas. No momento me sinto uma velha de 80 anos maldizendo tudo, daquelas que perderam tarde a virgindade e que não deixaram filhos, vivendo com uma cadelinha mimada no colo. 

Tive outro susto quando um amigo de infância resolveu me ligar do nada, contando seu sonho comigo. Quando falei por alto o que se passava, ele disse não se lembrar direito, apenas permaneceu uma angústia ao acordar e a preocupação constante, quis me alertar para algo. Lembrei que nos tempos de colégio ele havia previsto a morte da avó, pessoa muito querida. Durante a conversa, ele se mostrou extremamente saudoso e solícito quanto às minhas necessidades. É da área da saúde e está morando em Várzea Alegre, clinicando fisioterapia com a esposa. Lugar de nome bonito, porém passou a criar passarinhos pela falta do que fazer nas horas livres. Certa manhã, um desses bichinhos de asa escapou e João subiu no telhado. O resgate malfadou e o periquito chorou a falta do outro na gaiola, até que compraram uma fêmea. Frágil, tinha dificuldades para deglutir os alimentos. Passaram a dar papinha por uma seringa descartável. Preocupados, levaram a ave a um zootecnista, que identificou a complicação no aparelho digestivo: a comida havia apodrecido dentro do papo e o bicho veio a falecer em pouco tempo. Persistentes, resolveram criar outro periquito. Fiz votos de que este crescesse com saúde para, quem sabe, até procriar com o outro vivo. Desliguei o telefone esperançosa. Vai que foi um sinal para eu despertar para as pequenices do dia-a-dia ou para a imensidão do que se deve ser, sem meramente existir? Ganhar amplitude assumindo o cliché de viver como se não houvesse o porvir? Não sei, só sei que voltei a escrever como se estivesse inflamada por dentro e quisesse purgar com letras cada veia cava, como se a cova fosse a própria vida (não rasa).

5 comentários:

Felipe Terra disse...

Desejo-te melhoras Paola.
Escreves muito bem. Não deixe nada te tomar as palavras.

Abraço.

Tarco disse...

Eu acho que depois do susto, temos que nos refestelar com a vida... bjo bjo bjo!

Paola Benevides disse...

Obrigada pela força, meninos!
Muito amor...
Beijos.

Castelo disse...

Eu só sei que quero lhe ver e quero logo. E não "quero logo" porque temos tempo a perder, mas quero logo porque isso foi a coisa mais viva que eu li nessas últimas semanas. Mais viva. A coisa mais viva. Quero lhe ver, Paola, e comentar sobre as cores do céu em espetáculo de fim de entardecer. Sobre as imensidões que as outras pessoas no ônibus não reparam.

Um beijo grande e um abraço com verdades.

Paola Benevides disse...

Amado Tiago, você é... Iremos, em breve, longamente. Recebo teu abraço como um despertar. Beijo suas palavras por enquanto.