24 novembro 2006

Quem Tem Medo?

Sou uma pessoa que faz resgates o tempo todo no mar da memória. Lembro que o nome de Virginia Woolf se instalou na minha mente pela primeira vez através do título da peça: Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? Depois descobri que se tratava de escritora inglesa revolucionária. Quem tem medo dela?, era o que mais aguçava minha curiosidade. Depois descobri que a peça nada tinha a ver com a escritora em si. O que não apagou nada do magnetismo em torno de Mrs. Woolf. Em seguida fiquei sabendo que um autor americano, Michael Cunningham, fora laureado com o prêmio Pulitzer de literatura com um romance, As Horas, título que Woolf descartou em favor de Mrs. Dalloway. O livro punha a escritora como uma das personagens da trama. Foi o primeiro livro que comprei. Li e reli o volume no decorrer dos três anos seguintes. O livro popularizou-se mais ainda depois do lançamento do filme e meu exemplar passou por uma verdadeira via-crucis de empréstimos. Quase o perco. Após estes eventos, li pela primeira uma obra da escritora, Orlando. Aconteceu aquela identificação tão comum a almas gêmeas. No decorrer dos tempos, minha vontade de ler toda a obra da escritora tem esbarrado em diversos e vulgares obstáculos. Ainda não li Mrs. Dalloway, Passeio ao Farol, O Quarto de Jacob ou As Ondas. Todos se encontram na minha lista de leituras essenciais antes de expirar o meu tempo no planeta. Mas, igualmente com o que acontece com Clarice Lispector, a literatura paralela em torno de Woolf é bem grande. Um título que não pude resistir a leitura recentemente foi A Casa de Virgínia W., de uma escritora e professora espanhola Alicia Giménez. É um romance ou esboço de romance que se escora no diário de Nelly Boxall, empregada de Woolf por dezoito anos. A contracapa do livro dá conta de que o trabalho de Giménez traz à tona as contradições da escritora que era progressista e liberal nas idéias exteriores à sua casa. Dentro desta, Woolf seria o contrário disso, revelando suas verdadeiras concepções acerca de diferenças sociais. Após a leitura do livro de Giménez, que contêm boa quantidade de referências aos diários de Boxall e Woolf, fica-se com a impressão de que ao invés de minar a imagem da escritora, o livro ilumina ainda mais sua áurea. E que não seria surpreendente nos depararmos com uma futura peça teatral de nome Quem Tem Medo de Nelly Boxall?

Tarco Zan

2 comentários:

Pal, a voz silente disse...

Referências:

MRS. DALLOWAY (1925), romance de Virginia Woolf, tradução de Mário Quintana.

QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF (1962), drama teatral de Edward Albee.

AS HORAS (2002), filme dirigido por Stephen Daldry, com Meryl Streep, Julianne Moore e Nicole Kidman.

Gilvan disse...

Digo uma coisa só: não espere, leia. Acrescente à lista um livro que não lembro bem o nome, Noite e Dia, Dia e Noite, Luz e Sombra, sei lá, só sei que o título encerra uma dicotomia que, na verdade, é uma síntese do miolo.