01 dezembro 2006

Noções de Semântica

Se disser que irei me suicidar amanhã, tem muita gente que acredita. Se parar de postar aqui por um mês, vão acreditar no ato. Talvez já esteja agora levantando algumas suspeitas, mesmo porque andei matando aulas de sintaxe para assistir a uma leitura dramatizada de Sarah Kane, escritora inglesa de veia byroniana rompida aos 28 anos. Ah, ela também raspou a cabeça! - Qualquer ficção seria mera coincidência? E foi bom ter abdicado da lição sobre próclise, ênclise e mesóclise para aprender a escrever melhor a vida real. Afinal, formalidades da língua não formam personalidade nem verve de ninguém.

Nunca fui muito com a cara da Lingüística, mas devo admitir as conjunturas da linguagem verbal sob o ponto de vista transformacional, ou seja, encarar esse substrato social com todas as suas variações e possibilidades criativas. O uso que se faz da língua é de pura liberdade. Utopia é, em contrapartida, formar falantes sob essa carapuça da Gramática normatizada. Os puristas são tão insossos quanto uma página de jornal sem poesia, resvalando num suicidai-lo-ei-vos de soslaio burro. Tão pedantes esses pedintes de mais-que-prefeitos onde se arruinara a palavra com o pulo das letras tortas para fora das pautas.

Narrativas lineares me causam tanto enfado quanto caminhar sempre na linha. Reta. Lhos. Alhos e bugalhos para exorcizar esses vampiros da alta Literatura, que confundem autor com escritor com narrador. Em primeiro, Pessoa. Salve! Em seguida uns versos parcos meus:

Eu, poetisa, sei fingir minha dor na veracidade
Tal estrela que agoniza ao se pôr
E desvela o brilho na obscuridade.
R
ei
NA...


A certos imortais da Academia, o meu repúdio. Aos outros, dedico minha ironia ácida, enquanto corto os impulsos para não cometer exageros. Senão vem algum brasileiro com complexo de Parnaso querendo estancar esta verborragia aguda.

3 comentários:

Tarco Zan disse...

Levando em conta tudo o quanto acontece, acredito que a dor eh imprescindível para recarregar teu artifício, poeta.

Pal, a voz silente disse...

Que bom ser uma Masoquista bem quista. Só sou sádica com os fingiDORes de poeta!

Gabriela Lispector disse...

Adoro o ritmo da tua escrita.
Beijos.