21 dezembro 2006

Infeliz Natália

Natália, em pleno tédio dos seus mal-vividos quinze anos, olhava fixo para aquelas paredes decoradas da sala. Um relógio ali dependurado fazia gritar os ponteiros a meia-noite. Era o convite à ceia farta da família, cujas bocas esfomeadas se dirigiam até a mesa num intenso falatório. A tia gorda, segurando uma das coxas do peru, chamava com as mãos oleosas a menina, que respondia sacudindo o rosto cheio de fastio. Preferiu permanecer sentada no sofá, não suportando a mistura daqueles cheiros, nem o estrondo dos talheres na louça.

Aproximou-se da janela. Lá fora, uns homens sujos vestidos de Papai Noel catavam lixo, enchiam suas sacolas pretas e corriam com aquilo nas costas mais ou menos felizes. Natália então foi buscar uma bandeja de salgados e doces na cozinha, o que deixou a parentada satisfeita em seus comentários desprezíveis:


- Isso, muito bem mocinha. Coma tudo, você está mesmo tão magrinha...

Ela forjou que comia, abrindo depressa as cortinas. Ergueu a vidraça e ofereceu toda a janta aos mendigos. Eles devoraram em poucos minutos. Pediram mais. Olharam para dentro da casa querendo entrar, batendo com força nos vidros. A garota, surpreendida, fechou o cortinado e se pôs em frente à TV, aumentando o volume a fim de matar os ruídos vindos de fora e de dentro. As imagens em colorido frenético, o exagero dos sorrisos, o mesmo cantor popular das músicas dos anos passados que nunca usava roupas escuras e tinha perna de pau, a missa do galo. Galo? O porquê não sabia, mas lembrava das galinhas no matadouro da sua vó, a que trouxe canja essa noite. Tanto lhe causava espanto. E o Cristo crucificado ao lado do quadro da Monalisa...

Vermelho, vermelho. Desta vez sentiu fome de verdade. Desligou a televisão e foi para perto da enorme árvore de Natal, esperando impaciente a partida das inconvenientes visitas. Espionava por entre os enfeites a troca patética de presentes repetidos quando, sem perceber, levou aos lábios uma bolinha carmim de porcelana fina. Mastigou. Sangue brotando feito sumo de framboesa. A vida para ela tinha um gosto assim. Depois ergueu a cabeça, viu estrela torta da árvore no topo querendo cair, subiu na banqueta para arrumar. O lar silenciou. Natália se enforcara, de súbito susto, com um fio solto dos piscas-piscas.
Pal

4 comentários:

Tarco Zan disse...

Baixou Sarah Kane ou Plath? Nenhuma né, eu sei. Essa Natália parece gostar de experimentar o insólito, acho que se ela estivesse na rua em vez de estar dentro de casa, beberia água duma poça de lama ao invés de comer a bolinha... xxxx

Pal, a voz silente disse...

Sou a pura inocência, eu juro Zan! Mas foi meu eu-lírico que também esses dias dentro do ônibus imaginou a arcada dentária sendo esmagada pelas rodas... xxxx

Gil disse...

Lindo conto de Natal. Imagens fortes. Cores precisas. Consegui visualizar cada passao e, até, pensamento da Natália, coitada. Coitada nada. Morreu. Nunca mais precisará passar por outro Natal. Coitados de "nós".

Gabriela Lispector disse...

Caramba, tu escreve super bem. Leio teus textos também pra tentar aprimorar a minha escrita. Obrigada.
É muito gostoso viver tuas histórias.
São como filmes iranianos e
de Almodóvar...