19 dezembro 2006

Santo Caos


“Aqui está”, e pôs na mão de Seu Jorge três cédulas novinhas de cem reais. “Não era trezentos e oitenta?”, disse o velho, sem jeito. O gerente acertou-o com um olhar que quase o fez pedir desculpas pelo dito. “O governo não poupa nem Papai Noel, meu amigo.” E lá se foi Seu Jorge, tateando o dinheiro, sentindo-lhe o aroma fresco.

Ao deixar o “shopping center”, não levava mais decepção ou rancor. Trezentos reais. Ora, como estivador, precisara carregar muitas sacas de açúcar por dia para ganhar aquela quantia. Abençoado Natal. Gordo e barbudo Seu Jorge já era. A roupa, dava-o a gerência. De resto, distribuía doces às crianças, às vezes contava-lhes estórias, no bem bom, ar condicionado, lanche grátis. Ah!, abençoado Natal. Deveriam inventar Natais fora de época, como fazem com o Carnaval.

Numa esquina, parou para ver uma vitrine, linda, iluminada. E pensar que, para algumas crianças, por um breve momento, ele, Seu Jorge, simbolizava o espírito daquilo tudo. Sonhariam com ele. Ganhariam presentes dos pais e creditariam a ele. Sorria. Se aquilo não era felicidade, passava perto.

“Ei, tio”, alguém chamou. Seu Jorge virou-se, quase soltando um “ho, ho, ho!” por reflexo condicionado. “Passa a grana”, completou o pivete. Acompanhavam-no mais dois. Como Seu Jorge manteve o sorriso bobo, o pivete, num acesso de impaciência, retirou a mão do bolso e enfiou-lhe uma navalha à altura do peito. Os outros o revistaram e, achando o dinheiro, galhofaram, chutaram o velho. Desapareceram tão rápido quanto surgiram.

O golpe foi tão certeiro que Seu Jorge perdeu a consciência de pronto. No entanto, antes do último suspiro, discerniu duas figuras atravessando a rua. Eram mãe e filha. “Ó só!”, gritou a menina, “Papai Noel ta mal!” A mulher apressou o passo, arrastando a pequena. Teve pena, não de Seu Jorge, mas da menina, tadinha. Que maneira de descobrir que Papai Noel não existe!

Shade Chaos

3 comentários:

Pal, a voz silente disse...

Só mesmo a ficção para alarmar a realidade, os malefícios que o bem aparente dessa minoria soberba faz. De fato, as crianças perdem cedo a capacidade de fantasiar, enquanto outros pe(r)dem dinheiro e vida, ocasionando traumas, embrutecendo almas. Melhor acreditar no "véi do saco" que no "bom velhinho", pra de algum modo sobreviverem as lendas, mesmo estas sendo amedrontadoras. É um preparo para este santo caos... Olá!

Lidianne disse...

ótemo. adorei.

Tarco Zan disse...

Natal em Fortal, texto em forma, muito bom! Xxxx