09 abril 2008

Mimesis

Vi de longe que ela não estava bem. Maquiagem borrada, cabelo lembrando um cartoon eletrocutado e, para o meu próprio choque – nunca vou deixar de surpreender-me com ela – vejo também que metade do seio esquerdo dela está pra fora da regata branca. Tento chegar o mais rápido possível nela, o que é bastante difícil por causa do mar de mesas plásticas condensadas no espaço. Ela finalmente me vê e arregala os olhos. Aponto o dedo pro meu peito, desenhando no ar um círculo e imediatamente direciono o dedo pra ela, que agora, além de arregalar os olhos, se ergue da cadeira pra olhar pro meu peito. Nisso, um garçom e um desconhecido vêem o seio dela à mostra. Agora sou eu quem arregala os olhos, segurando meus peitos com as mãos. Paola faz um muxoxo e volta a sentar. Menos mal. Consigo chegar na mesa e nos abraçamos. Passo a mão sobre a cabeça dela, tentando desfazer o que mais parece um ninho. Ela sorri sonolenta e diz, também sonolenta:
“Tu tá tão carinhoso hoje?”
“Teu cabelo tá super assanhado.”
“Ah, deixa isso pra lá!”
“E teu peito estava pra fora da camiseta.”
“Hein? Valha! Pêra aí.” Ela pausa um instante, se auto-examina com os olhos, e então explode numa imensa gargalhada.
“Era por isso então que tu tava fazendo aqueles sinais.” Ela constata.
“Sim.”
“Pensei que fosse só viadagem mesmo.”
Rimos juntos e brindamos a nada, somente o hábito de tilintar os copos. Pergunto então o que aconteceu, pois visivelmente ela não parece bem. Ela lista o que perdeu recentemente e fico espantado com a quantidade de coisas. O que imagino como os itens mais importantes são: o emprego, a namorada africana e o apartamento. Precisa encontrar onde morar em um mês. O rosto dela parece mais amenizado ao confessar seus medos. Na pior das hipóteses, você volta pra casa dos seus pais. Digo a ela tentando mostrar que isso não é tão mal assim. Ela grita em resposta:
“Porra! Nem sonhando. Tá louco?”
Paola é orgulhosa demais e sempre subestimo isso. Agora ela quer ouvir a continuação de minha odisséia na terra. Sou seu contador de histórias predileto e assim ficamos por meia hora, entre risos gritados, caretas, e olhares cúmplices. Então chega o Gilvan usando uma peruca loira, para espanto nosso e riso convulsivo da Paola. Ele está usando um rayban clássico e fico em dúvida se a figura dele me lembra Johnny Depp como traficante, ou Johnny Depp como travesti. Vejo que ele gostou do efeito que nos causou dominando a situação com o impacto do novo look. Ele senta a mesa soberanamente. Eu não resisto e entrego:
“Gil, ficou ótima essa peruca em ti.”
“Que peruca? Tu não percebe a diferença?”
“Não! É teu mesmo? P...”
“Eu não tenho tempo a perder. Vim até aqui porque tenho algo muito sério pra falar com vocês. Aconteceu algo comigo que eu jamais imaginei. Preciso da ajuda de vocês de antemão e me poupem de julgamento besta nesse momento, como eu disse, não há tempo. Não temos tempo, melhor dizendo. Devido a nossa ligação, o que aconteceu infelizmente envolve cada um de nós. Não sei se esse é o melhor lugar pra conversar.”
Eu e Paola temos duas máscaras trágicas coladas no rosto e não é possível retirá-las agora. Não sabemos fazer isso, ainda somos inocentes nesse enredo para onde somos arrastados involuntariamente pelas mãos firmes de nosso amigo - somente agora percebo - disfarçado.

Continua...

Tarco Lemos

2 comentários:

Paola Benevides disse...

Anda lendo o futuro em mamilo agora é, mah? Sei lá, de repente rola... Mas ei, senti uma corresnpondência fodida com tudo. Gilvan foi louro mesmo, ainda escaneio a tua foto de infância, Gil! PQPARILL KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Ai, que dor na barrigénha!!!
Beijos, caras.

Gilvan disse...

Eu era fofo, tá?! Tarco, o que dizer? Inspiração. Você me inspira, sempre.