13 março 2006

MACAMBÚZIO


O teto, revestido pelo azul pálido das túnicas dos anjos, amarelece. Nuvens gordas de luminosidade estendem no céu laranja-fogo os seus vapores em forma de degraus. Última chamada para os pés do gigante galgarem a distância entre o terreno e o etéreo.

Enquanto põe-se o ovo incandescente no horizonte, luzes de mercúrio vão se acendendo aos punhados aqui em baixo, vagando seus lumes pelos recantos mais escuros. Nos recintos, ardem as ceras escorreitas das velas nos candelabros, pingando um amontoado pontiagudo que se solidifica feito estalagmites de cavernas geladas. Sobre as mesas, papéis e pena iluminados. Um escritor. Sua mão caminha sobre o livro e corre pela parede de seu quarto, ampliada pelos efeitos mágicos da chama. Uma forte brisa empurra a janela do quarto, apagando aquela iluminação frouxa e trêmula. A sombra da pena empunhada desaparece.

Um bando voa alvoroçado ao encontro das árvores. Galhos desnudos pendem seus braços, espalhando as folhas sem viço com o frenesi dos pássaros. Finda-se mais um dia de labuta ao abrigo do sereno. Libertam-se das suas tocas os outros bichos, desprendendo-se de seus casulos. Vão executar suas atividades noturnas até a exaustão, logo buscando o aconchego do descanso longe do burburinho dos primeiros feixes de calor diurno.

O homem possui análogas passagens. Há quem se utilize da luz natural para despertar do sono, revigorar o corpo em seus labores cotidianos, quando se depara com o desabrochar da flora em cores de arco-íris. Mas existem também os amantes noturnos que se rendem ao alvor da lua e à solitude, deixando-se guiar apenas pelos reflexos estelares.

Macambúzio se sentia assim. Tal qual um morcego, todas as manhãs se recolhia na penumbra de seu tristonho aposento. Não havia nada que lhe causasse interesse sob o sol e só podia o luar lhe trazer imensa satisfação. Trocando o dia pela noite, levantava sempre ao final do crepúsculo e, daí em diante, iniciava as suas tarefas. Um verdadeiro eremita, habitava em uma longínqua montanha onde construiu sua rústica morada. Lá vivia uma vida simples, sobrevivendo da caça e da pesca. Com muita habilidade separava o alimento, a carne do couro, confeccionando as próprias vestimentas. Fazia cobertores e tendas. Em rios próximos praticava a natação, pescava com suas estacas afiadas e, com a terra molhada, modelava o barro que em pouco tempo se transformava em toscos vasos e em caldeirões muito úteis.

Para pessoas civilizadas comuns, que abrem rotineiramente os olhos todas as manhãs, este indivíduo poderia ser considerado um lunático ou até mesmo um monstro. Entretanto, ele tinha razões para tal excentricidade. Poucos eram sabedores, mas Macambúzio se ocupara em sua juventude de minuciosos estudos de textos antigos, escrituras sacras e ocultismo, aprendendo, assim, diversos idiomas.

Certa vez, encontrara em meio às suas aprofundadas leituras valiosos manuscritos de seus antepassados grafados em dialeto estranhíssimo, em alguma língua morta. Ao desvendar tais escritos, lera uma história surpreendente. Era um relato acerca de um povo bárbaro que adotara um princípio de vida dito obscurantista. Em tempos remotos, contavam que havia seres sobre uma face encoberta da Terra. Estas criaturas possuíam uma feição hedionda e não suportavam ver umas às outras, passando a isolar-se cada qual em um monte de altura tal que nem as aves lá chegavam.

Aqueles obscuros seres, ao sentirem necessidade de procriar, acasalavam-se no inverno, quando a chuva era intensa e a densa neblina escondia a palidez da lua, ocultando a claridade sutil dos astros menores. No momento em que vinham ao mundo, eram bruscamente arremessados sobre os picos mais elevados das montanhas. Nasciam franzinos, mas eram dotados de sabedoria suficiente para lidar com todas as técnicas de sobrevivência, logo passando a desenvolver os músculos. Contudo, no que dizia respeito à capacidade de se relacionar com os outros indivíduos, eram totalmente ignorantes. Desconheciam, inclusive, de que maneira poderiam manifestar seus sentimentos ainda em estado bruto. Sequer imaginavam o que viria a ser o amor, a alegria ou a concórdia, excetuando o medo e outros instintos menores. Eram todos alienados.

Outrora, houve certa criança que mesmo criada longe do seio materno, porém nutrida pela mãe natureza, despertara sobre o cume ao qual fora lançada ao nascer. Dotada de uma assombrosa incomum sapiência, bradou num estrondo profundas indagações às forças superiores. Sua voz ecoava:- Por que vivo nas trevas, em desunião? Por que todos fogem uns dos outros? Ora, então será que fogem de si mesmos? Por que tanto temor? Oh, quanta infelicidade! E o que existe fora daqui, além da obscuridade?

Eis que, naquele instante, surgiu ao longe algo indecifrável para o povo daquela insólita região. Uma imensa bola de fogo despontou no sombrio horizonte calando, enfim, o jovem inquiridor. Por todos os pontos da não mais tenebrosa montanha, todos os habitantes começavam a avistar os primeiros feixes da luz provinda do infinito. Observavam debilmente o reflexo de suas faces rotas em poças d’ água, cara a cara com seus semelhantes. O brilho cada vez mais intenso os cegava e os pungia. Ao chão, corpos desfalecidos de vertigem, mortos aos poucos pela estupefação ante o calor e a feiúra.

Os antepassados diziam que esta fora a prova veraz da existência de um deus. O criador do universo, evidenciando naquela manhã o que a escuridão tanto ocultava, esperava apenas que os homens clamassem por sua luz a fim de transformar a Terra e aqueles olhares primitivos através do fulgor da verdade.
Macambúzio lera essa lenda macabra ainda na flor da idade, quando daí teve a idéia de se isolar do dia e do mundo dito civilizado. Mas a razão disso tudo ainda não parecia justificável. O ser sorumbático não desejava unicamente reproduzir os feitos de seus ascendentes para estender suas raízes, embora também quisesse assistir ao divinal espetáculo, recorrendo àquele grandioso ser a fim de questioná-lo sobre a natureza humana. Gostaria tanto se defrontar com alguma solução salvadora... Queria encontrar alguma maneira de todos os indivíduos serem amparados pelos calorosos braços do amor.

Este montanhês carrancudo, ao contrário de seus grotescos familiares, era dotado de todos os sentimentos presentes no íntimo de qualquer sapiente. Todavia, a centelha da afeição e da felicidade já havia fraquejado em seu coração. Lá, agora só vigorava o desalento e o enfado. Ele estava farto de viver ao clarão do sol, pois decerto não havia nada de novo. Consoante a sua forma de pensamento, a singular diferença era o fato de as pessoas verem seus semelhantes sem nada distinguirem além das aparências.

Hoje, mesmo com toda a claridade que nos cerca, não mais se vê a real beleza. A maioria da gente verte as suas máculas, ambições e vícios, corrompendo o que resta da pureza, com sua obscuridade interior. E de que adiantava ver a abóbada celeste se revestir de um colorido que enche os olhos de entusiasmo se ao pender a cabeça para baixo se assiste a um tétrico espetáculo? Dor, miséria, sede, fome, imundície, dúvida, ódio, sangue, pranto, injustiça, condenação, preconceito, perda, angústia, ignorância, desespero, destruição... Morte.
De que valia ter a dádiva da luz a guiar os passos do homem, se não deixam eles de caminhar na martirizante treva do mundo? A humanidade não dá valor à recompensa inestimável da verdade e da inspiração divinas. A virtude parece um caminho árduo, inatingível. O caminho da retidão parece turvar mais a visão do que a maior estrela do universo.

Macambúzio então se resguardara em sua modéstia, vivendo da noite e só para ela. Talvez porque não se sentisse merecedor de algo tão extraordinariamente belo quanto o Sol.

Abatido, mas convicto de que estaria indo ao encontro da salvação, contemplava a Lua e os pequenos astros. Tinha a companhia sincera da natureza. E, pacientemente, esperava cessar todo o mal, para que assim pudesse encontrar a Deus ao encarar a aurora, fitando o amanhecer de uma promissora Nova Era.


Pal

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