02 abril 2006

A Pintura

Ela pinta as unhas de vermelho com toda a calma, após ter tocado seu corpo com uma bruta fome de si própria. E ri e fecha os olhos e canta. O mundo que outrora tinha cara de mocinha constrangida ante a menarca, agora abria as pernas em posição ginecológica, sem que a mãe precisasse ter contado toda a história para ela. Sua mãe que morrera de parto. E partiu sem conhecê-la.

As melhores rosas foram dadas de brinde, na espontaneidade indiferente dos canteiros de rua. Nos piores brindes não havia rosas, apenas flores plásticas cheias de reentrâncias a acumular poeira sobre as mesas postas. Postas, também, as mãos cadavéricas a render graças ao pão nosso daquele insosso dia:

- Amém, até que enfim!

O cúmulo seria beber com soberba na taça sem nada ter a preencher o estômago. Diziam fazer mal ao rim. Assistia com repugnância aos esfomeados atacarem seus pedaços mal passados de fígado naquela ceia santa, esquecidos de erguer os cristais no típico gesto do tilintar comemorativo. De tudo isso ela sabia tim tim por tim tim na sua lembrança.

Toda vez se sentia congelada tal carne em açougue, à mostra, dependurada, quando uns sapos a cantavam afoitos, a salivar com voz áspera:
-Filé!
-Gostosa!
Cantavam em desafino o que se tratava de uma pele suave, macia e bem composta. Aquilo era o coro dos gulosos, o mau agouro dos pássaros carniceiros tentando em fáceis rituais o acasalamento. Ela preferia outros tipos de música, um encanto pouco conservador, nem tanto. O coaxar reles vindo de qualquer Parnaso nunca! No final, não menos feliz, acabava por ficar em seu canto, isolada, lado a lado com outros invisíveis seres. Melhor a fazer, portanto, era tirar a comida da geladeira, ressuscitá-la com toda frieza na panela e regar a vinho e Blues sua melancolia. Boa menina? O vulgar jamais poderia julgar quem ela era. Mulher duna, sol no meio, sendo uma só a duras penas. Águia ou galinha? Olha para o cinzeiro cheio como quem quer renascer...

Lua plena na janela. Àquela altura ela também já se dava por satisfeita. Depois das garras compridas, bem apanhadas, capazes de fazer sangrar qualquer tez masoquista, arrastava o batom com pressão sobre os lábios lassos prestes à conquista. Tinha pressa sempre, mas cumpria sua sina. O rouge usado pela avó já não havia, virou pó. Transformou-se em blush a corar os apetitosos seios da face dessa Eva hodierna nos atropelos todos da hora do rush. Contudo, certa timidez bastava para marcar as maçãs do rosto em sua natureza morena. Ao olhar nos olhos trágicos do espelho, este sussurrava obscenidades de criança pequena. Em seu quarto, enquanto calçava as tênues meias três quartos, lembrava dos arranhões no joelho, de sua infância pouca e triste. Mais um fio repuxado acima da coxa grossa, por descuido ou chiste do silêncio cilício. Dentro da bolsa, um retrato três por quatro, uma identidade que nunca esquecia antes de sair. Existe... Pronta para o sacrifício? Não, desta vez não iria, mas estava sempre preparada.

Decidiu estrear a sua poltrona ainda envolta em plástico, sentando ali e chamando The Police à vitrola. Aquisições recentes. Tudo graças a um salário não fixo, de esmola, fadado a novas propostas indecentes. O som devassava aquele imenso vazio, pintava Roxane com o agudo e sustentável movimento musical dos saltos altos. E, quase no mesmo tom, um velho exemplar espionava entre os livros tortos da estante: Cyrano de Bergerac. Então ela pensou, empostando a voz altaneira:

- Quantas mais Roxanas haveria pelo mundo?


Ficção, não mera coincidência. A verdade pura em pelo refletida no espelho. Sim, algumas almas prenhes batizavam as filhas inspiradas em nomes encontrados na magia dos contos de fada. Bruxas. E o que dizer quando o caráter é que se assemelha ao da personagem? Jamais nada saberia. Só lhe enternecia a imagem de uma Gioconda à sua frente, de moldura em ouro banhada, parecendo sagrada o bastante para ornar sua pálida parede. Quem, afinal, era aquela de olhar maternal, de meio-sorriso distante, de colo leitoso? Nessa noite, ficou tão impressionada, que passou a adorá-la assim, sem mais. Mas nada, não passava aquele retrato de uma Monalisa impressionista em tons de carmim perfumada.


Pal

Um comentário:

Tarco Zan disse...

Isto não é para quem escreveu mas para a personagem: estamos a deriva minha querida, nos mundos, você preparada no seu quarto para nada, pintada, excitada se excitando, alentada entre figuras que te fazem companhia. Continue esperando, é preciso continuar continuando.Eu aqui em frente à tela branca, sozinho, cercado de branco e continuando. Saber que você existe da forma que existe me dá esperança.