04 julho 2006

Loser

"A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério."
Uma Arte, Elizabeth Bishop

"We were born to lose." Placebo
Talvez o gosto se aproxime: um punhado de terra lunar na boca, os contos escritos deletados por erro alheio, o filme repleto de fotografias que nunca mais aparecerão ao mundo, assim, como uma ave extinta. Sabe-se que existiu, por ouvir dizer, gravuras em grutas, mas não há nem mesmo os ossos para montar a estrutura, racionalizar o conteúdo e imaginar todo o resto. Dor. A dor adoro. Mas muito é demais. Perder muito não anestesia. Não me habituo. Dói, dói. Não tenho talento para elegia nem hai-kai nem qualquer coisa que não seja isso, respiração em linha reta. Pensamento em palavras, aos poucos. O tempo nos tira o tempo, dói, mas é à prestação. Perdas instantâneas deixam-nos boquiabertos, tipo depois de um soco no estômago, a respiração cortada. Quem disse mesmo que viver é um soco no estômago? Deve ser também uma conjuntivite inflamada, uma dedada no pescoço, uma enrabada sem vaselina, uma erupção cutânea que se rompe estrangulada por um velhinho sádico de bata branca, um dente perfeito extraído. Se eu resgatasse ao menos as fotografias, eu tiraria da lista a erupção cutânea.

Um comentário:

Pal, a voz silente disse...

Todos aprendem a ter, menos a perder. As perdas são peças do quebra-cabeça da vida. O corpo é o limite, o céu não. A morte vem tal um coito interrompido, ninguém sabe de nada. O nada pode conter tudo, a dor liberta, cresce-se e nota-se. E mesmo que se perca algo, sempre se anota. A lembrança não esquece quando é escrita. Só alguns são escolhidos pela posteridade. A imensa maioria dos que escrevem obtém o reconhecimento ao fenecerem na Terra, sob ela.