12 julho 2006

VEROSSIMILHANÇA

Levam-me tão ao pé da letra, que já não sei quem é que sou. Por isso escrevo, procrastinando tudo, ao beijar os sapatos do silêncio. Depois descobri o ciúme das palavras, do limite delas em não transmitir todas as cores e cheiros. Mas isso depende do poeta. Eu não consegui ter o talento suficiente e acabei por misturar odores com as dores de cantar. Minha realidade é outra, calculada pela lógica da Arte, sem definições perfeitas ou concluídas. Daí quando choro sou a louca, preocupados com meu clima como se não fosse parar de chover nunca. Calma, ainda não se trata de apocalipse, é só o início do meu prazer. São sujos, celados, sem direito a banho diário de alma. Meu ofício é limpar orifícios para a visão ficar mais fluida. Maldigo quem me usa as próprias palavras contra minha humanidade. Basta um ato falho para atirarem lições moralistas à minha cara, para tirarem conclusões do que ainda está a ser. Odeio metodismos idiotas. Talvez odeie mais por também ser metódica, afinal todos têm seus rituais. Livre só sou no fluxo do pensamento mais íntimo, porque no fundo sou uma anarquista sensacional: sensacionista. De repente, monologo como forma de explicação e não passa de tentativa. Todo bom leitor sabe que não cabe confundir autor com narrador ou personagem, por mais que estes se confundam em sua esquizofrenia intencional. Em suma, quem está de fora almeja extrair o sumo do artista, de tão viciados na vida alheia. Mas arte não requer controle, requer compreensão desprendida. Instrumental. Como exemplo, uma arma. Esta pode ser três situações: crime, defesa ou enfeite, contudo tende-se a perceber o lado mais negro, a primeira coisa, sua representação. Toma-se agora em mãos o livro. Ele não é só instrumento de saber, como serve de peça decorativa ou objeto de ostentação por parte da maioria que pretende aprender por osmose, com suas edições baratas de luxo debaixo dos braços.

Era uma vez uma jovem casada com um cientista. Um dia cansou de ser equação e, friamente calculista, arremessou o tratado filosófico das fractais atômicas na cabeça oca do marido. Resultado: óbito por asfixia no próprio vômito. Ela não tinha revólver, mesmo assim, decidiu suicidar-se em frente a TV. Preparou pipocas e chorou no final do filme.

Pal

Um comentário:

Tarco Zan disse...

Pal, vc ja tem um material substancial, da uma olhada pra o q vc escreve. Aproveita tudo, rearranja. Tem valor expressivo forte! Tou feliz por vc e morrendo de bliss, vi o trecho da clarice de novo neste blog... da vontade de mais!

Tark