24 agosto 2006

Guerra nossa cotidiana

Ela acorda cedo. Não há luz elétrica em casa (coisa do último bombardeio), mas como sempre se dá um jeito, lá estava a vela. Guia-lhe à cozinha o instinto. Um batido de panelas, o glut! de uma vasilha sendo afundada numa bacia de água, água em chuá! na chaleira.
O marido? Se sobre ele pergunta, leitor, é porque ou é um leitor burguês ou um burguês leitor. Não leu o título? Por acaso há maridos, pais, numa guerra?
Se não há marido, pelo menos há filho. Lá vem, esfregando os olhos, sem vergonha (está só de cueca). Vinte e cinco anos, mas, Deus tenha piedade, é uma garoto pelo que não viveu. E não viverá muito.Morrerá neste mesmo dia, num hotel em ruínas, dois tiros próximo à omoplata direita e um na cabeça, este dado por um soldado amigo seu, por misericórdia.
Soubesse aquela mãe do que eu sei e lhes contei, pouparia ela aquele pó de café e aquele açúcar? Não, certamente que não. Faria um café mais forte e docinho, talvez com um leve sabor salobre, se nele caísse uma ou outra lágrima.
Vestido, a roupa camuflada, encardida de suor, poeira e sangue, um boné verde, olha pela janela, o dia nascendo, uma palidez no mundo. Não beija a mãe, apesar de, sabia lá o motivo, bem gostaria de abraçá-la. Diz um até logo tímido. A mulher lava vasilhas e copos e de cabeça baixa mesmo se despede.
Guardem essa imagem dela, pois é assim, de cabeça baixa, que essa mulher sem marido, filho ou pátria vai seguir pelo mundo.

Um comentário:

Pal, a voz silente disse...

Gil, tocante demais. Senti em pelo um quê de orgulho e revolta. Li e reli. Não sei se te oferto pêsames ou parabéns, meu amigo...
Intertextualizando com o dia-a-dia, lembrei de quando fiz uma visita curiosa ao museu-casa do Cristiano Câmara, como bem você me recomendou. Lá, além de me boquiabrir com o acervo cinematográfico e musical, defrontei-me com frases soltas entre uma saleta e outra...
Tinha uma que dizia algo como: "Se o mundo fosse governado pelas mães que perderam os filhos na guerra, seria mais digno de se viver." Já uma outra falava: "Quando um homem morre, é como se uma biblioteca inteira se incendiasse."