23 agosto 2006

Uma farça chamada Bienal

De dois em dois anos o povo de Fortaleza tem a oportunidade de visitar um espaço onde se encontram livros e mais livros de todos os títulos, para todos os gostos e necessidades, além de uma programação igualmente variada de palestras (facilitadas por renomados escritores), debates, cursos, oficinas, exposições, lançamentos, apresentações et cetera e tal.
Num país repleto de analfabetos e alfabetizados iletrados pareceria estupidez indagar o porquê de um evento desse, uma vez que, como seus organizadores explicam, essa é uma oportunidade única de democratização do conhecimento. No entanto, qualquer um que insista em questionar a importância da Bienal Internacional do Livro, ao menos como um exercício de não conformismo, chegará à conclusão de que, mais uma vez, as aparências enganam e ainda tripudiam.
Antes de mais nada, não se deve perguntar por que a Bienal é importante, já que sua proposta é clara e digna de louvor. A pergunta pertinente é: a Bienal condiz com o que se diz ser?
Para uma idéia de democratização do conhecimento, a realidade do evento é, no mínimo, decepcionante. Os livros de real valor e de interesse dos freqüentadores são vendidos a preços iguais aos das livrarias, muitas vezes até o dobro mais caros. Enquanto isso, as edições inexpressivas, verdadeiros refugos, podem ser encontrados às pilhas, numa organização caótica, por uma ninharia.
Nisso, observa-se que a Bienal é importante, sim, mas não para a concretização de sua proposta ou para o povo que a prestigia. Importa, sobretudo, para as editoras e livrarias oportunistas que, cegas pela ganância, boicotam a idéia sublime do evento e a si próprios, pois se por uma lado deixam de formar e informar leitores devido à velada segregação capitalista, por outro perdem a simpatia de prováveis clientes.
Tal crítica poderia ser questionada através das estatísticas de venda, crescentes a cada evento, como também divulga a organização. Nisso, seria o caso de se indagar se a venda considerável de livros representa um indício seguro de democratização do conhecimento. Seria necessário saber o perfil dos compradores, bem como o que foi vendido, porque uma única pessoa, de poder aquisitivo alto, pode levar uma estante inteira de títulos caros.
Sendo um evento badalado, a Bienal recebe um público numeroso, gente que, pelo que se observa, comparece apenas por diversão ou distração. Como se estivesse indo a um shopping center no final de semana, o povo olha, fuça, come pipoca ou sorvete e vai embora. Bom seria se o povo não apenas tivesse a Bienal enquanto lá está. Bom seria se o povo levasse a Bienal consigo, se a possuissem num livro de conteúdo aproveitável e de qualidade. Bom seria se, além da pipoca e do sorvete, fosse Hemingway ou Borges a custar um real.

Um comentário:

Rogério Kreidlow disse...

Gilva, é Rogério, namorado da Paola. A crítica diz respeito a algo que também me incomoda: o fato de usar rótulos do "politicamente correto" (democratiza a cultura, proteger meio ambiente, promover a cidadania, e por aí vai) como simples marketing para satisfazer a única coisa que, hoje em dia, serve como parâmetro: vender. Comentei com a Paola, é até interessante caso te ligues nisto: há um livro de Fredric Jameson (Pós-modernismo: A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio) um teórico americano que, do meu ponto de vista, discorre bem sobre esta mercantilização da cultura e, é óbvio, da vida. Não importa se se vendem livros, roupas, sorvetes ou seja lá o que for. Tudo é mercadoria e tudo o que for contra tal lógica é logo taxado de anacrônico. O grande questão é como colocar a vida acima do capital. Parabéns pela impressão de "repórter" e crítico da Bienal. Um abraço.