30 maio 2008

Vertigem

As enormes vigas de madeiras encaixavam-se perfeitamente. Suspensas do chão, pareciam mover-se, causando vertigem, uma leve tontura. Era uma dessas intervenções artísticas que ornavam um antigo galpão feito centro cultural perto da praia. Um espaço amplo, rústico, pintado recentemente e com iluminação fraca. A peça de madeira gigante dominava todo o espaço e ao seu redor estendiam-se esculturas, também em madeira, como se prestassem culto ao imenso objeto. Visitamos o lugar muito rapidamente, eu e meu amigo G. Além de nós, apenas um casal de estudantes demoravam-se por ali, inclinados para frente diante das esculturas, lendo as legendas. Também havia dois curadores revezando-se pelo comprimento do galpão tirando notas sincopadas da sola dos sapatos sobre o piso de madeira. Não foi necessário mais do que cinco minutos de contemplação para logo decidirmos tomar outro rumo, ir atrás de algo mais interessante pra fazer. E justo quando nos despedíamos do local, ouvimos um som arrepiante de ave de rapina que, por meio do eco, tomou o ambiente de súbito. Estacamos e vimos então uma ave assombrosa, grande, partindo do alto da peça central. Outra grasnada, um bater de asas, e o vôo plano, perfeito, em direção a ampla abertura que dava para a rua de paralelepípedos empoeirados. Desconcertados, olhamos em direção ao casal de estudantes que, somente então percebemos, tinham cara de catástrofe.

Tarco Lemos

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